LEITURA - Um passeio pelas ruínas de um estranho tempo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de dezembro de 2015
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
A história encarada como ser vivo. Um elemento que muda de posição, acelera, diminui o ritmo, descansa, corre, tira uma soneca, volta a corre e segue em frente. Um elemento que, entre um ponto e outro, se arrasta ou acelera. Um ser que possui um centro de gravidade variável.
Para manipular a história, basta alterar seu centro de gravidade, empurrá-lo para a direita, para a esquerda, para frente, para trás, puxá-la para perto, empurrá-la para longe ou derrubá-la no chão.
Em seu novo romance, "Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai", o escritor português Gonçalo M. Tavares desenha um fábula sobre as nuances da história do século 20. Apresenta a ideia de que as guerras europeias criaram um novo centro de gravidade que foi manipulado por todos os lados envolvidos.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai" é um passeio pelas ruínas das guerras do século 20. O passeio é realizado por dois personagens de passado misterioso e oculto. De um lado está Marius, um homem enigmático que empreende uma nebulosa fuga. De outro está Hanna, uma garota portadora de trissomia 21 (Síndrome de Down) que vaga perdida e empreende uma clara busca.
Marius deseja fugir. Hanna deseja encontrar. Os dois se encontram por acaso e se unem. Em sua fuga, Marius abraça missão de encontrar o pai de Hanna. Nessa jornada os dois cruzam com uma série de figuras que possuem fortes vínculos na Segunda Guerra Mundial, figuras que representam vários lados do conflito.
Ao encontrar Hanna perdida na rua, Marius percebe que a garota possui uma caixa cheia de fichas educacionais. Algo como um curso de sobrevivência física e de convivência social. São instruções simples como colocar uma camiseta, atravessar uma rua, responder a um oi, etc. Mas as ficham também abarcam questões complexas como o sentimento de humanidade presente nas pessoas.
Vagando pela Europa em busca de alguma pista do paradeiro do pai da garota, Marius e Hanna cruzam com pessoas carregadas de peculiaridades. Há uma dona de hotel que nomeia cada quarto de seu hotel com os nomes dos campos de concentração nazistas. Há um senhor que consegue escrever palavras em dimensões tão pequenas que só podem ser lidas através de um microscópio. Há uma família que cria e espalha anonimamente cartazes pelas ruas das cidades num projeto de rebeldia invisível. Há um senhor que vive a partir da tese de que todo homem deve ter posses que correspondam apenas ao peso de seu próprio corpo. Há um velhinho que faz parte de um grupo que não acredita em documentos e defende a tese de que tudo que pode ser perdido deve ser memorizado.
A coleção de figuras é vasta, mas uma delas permeia toda a jornada. Trata-se de um fotógrafo especialista em retratar caras de animais. Tipo os retratos de registro policial, com a imagem frontal, perfil direito e perfil esquerdo. Além de animais, o sujeito registra rostos de crianças portadoras de deficiências físicas ou mentais. E passa a perseguir Hanna para conseguir uma foto da garota.
A narrativa com elementos fabulares de Gonçalo M. Tavares é clara, apesar de alusiva. Sua proposta é apresentar uma narrativa onde judeus e nazistas são pessoas comuns. Não são militares importantes ou grandes dirigentes políticos, mas pessoas simples do cotidiano, seres humanos abatidos pela história escrita com "h" maiúsculo. Pessoas que assistem o centro de gravidade da história ser alterado de acordo com distantes forças de poder.
Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970, na cidade de Luanda, em Angola. Mudou-se para Portugal ainda criança, onde de se tornou professor de literatura. É hoje um dos grandes nomes da literatura contemporânea portuguesa ao lado de Valter Hugo Mãe (igualmente nascido em Angola, em 1971, e transferido para Portugal na infância). Entre suas obras de destaque estão "Jerusalém", que recebeu os prêmios José Saramago de 2005 e o Portugal Telecom de 2007, e "Aprender a Rezar na Era Tecnológica", que recebeu o prêmio francês de Melhor Livro Estrangeiro 2010.
Uma curiosidade: o romance "A Máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares, lançado no Brasil em 2010, aparece na lista, divulgada na semana passada, de obras de literatura estrangeiras mais vendidas nos Estados Unidos em 2015. Na mesma lista aparece uma curiosidade ainda maior, o nome de outro escritor da língua portuguesa. Na verdade uma escritora, Clarice Lispector, com uma coletânea de textos organizada por Benjamin Moser.
O que trazia na mão era uma pequena arca frigorífica. Posou-a no chão do passeio e, parecendo alguém que se prepara para mostrar diferentes tipos de gravata, abriu a arca e acompanhou o nosso susto com as palavras que, explicando, tentavam acalmar:
- É uma marta. É um animal raro.
- Morto terá murmurado Hanna.
Estava morto, cercado por inúmeras pedras de gelo, pedras onde o homem mexia como se elas rodeassem não o cadáver de um pequeno bicho, mas uma bebida que se pretendia manter fria.
- É um animal muito raro repetiu. Queria entregá-lo a alguém, para tratarem dele. Para o embalsamarem ou algo assim. Não se atira um animal raro no lixo disse. Mesmo que morto.
- Posso fechar? perguntou.
Respondemos que sim.
Era um animal branco, com uma cauda longa. E ali, no meio do gelo, a contaminação de tons desmaiados o branco do animal, o branco do gelo transmitia-nos uma sensação excessivamente desagradável.
Explicou-nos que andava há vários dias de um lado para outro com a pequena arca frigorífica. Que ninguém queria ficar com o animal dizendo isto como se falasse de um animal vivo que fora abandonado.
- Fui ao Museu de História Natural e disseram-me que não tinham pessoal para tratar de casos destes. Depois fui à Sociedade Protetora dos Animais e também não o aceitaram.
- Se apenas se protege animais enquanto estão vivos disse-nos o homem -, comete-se um erro.
Acenei com a cabeça, embora o discurso me parecesse cada vez mais absurdo.
- Temos que proteger os animais mortos, exibir os animais mortos, e só assim defendemos o resto.
De repente ele perguntou:
- Querem ficar com o animal?
Respondi que não. Que não tínhamos possibilidades de cuidar de um animal morto.
- Tem apenas que renovar o gelo de tempos em tempos. Se mudarem o gelo de seis em seis horas o animal conserva-se sem problema.
(De "Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai", de Gonçalo M. Tavares)

SERVIÇO
"Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai"
Autor Gonçalo M. Tavares
Editora Companhia das Letras
Páginas 240
Quanto 39,90


