‘A diferença entre guerra e a paz é a seguinte: na guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na paz, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos."
Essa epígrafe presente em um dos capítulos do novo romance histórico de Mia Couto, "Mulheres de Cinzas", pode oferecer o contorno de algumas nuvens que chovem sobre a história narrada pelo escritor moçambicano.
Outra epígrafe pode oferecer a direção dos ventos que derrubam as águas.
"A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda que a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que do intacto corpo que ainda conseguimos salvar."
Relâmpagos e trovoadas podem se esfregar em uma terceira epígrafe, como um resumo do suor dos homens em disputa pelo poder.
"Sorte a dos que, deixando de ser humano, se tornam feras. Infelizes os que matam a mando de outros e mais infelizes ainda os que matam sem ser a mande de ninguém. Desgraçados, enfim, os que, depois de matar, se olham no espelho e ainda acreditam serem pessoas."
Enxurradas e inundações são capazes de sujar aquilo que parecia possuir a farsa da alvura.
"Os mais perigosos inimigos não são aqueles que te odiaram desde sempre. Quem mais deve temer são os que, durante um tempo, estiverem próximos e por ti se sentiram fascinados."
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Mulheres de Cinzas" é o primeiro volume de "As Areias do Imperador", trilogia idealizada por Mia Couto para narrar a relação histórica entre africanos e portugueses em Moçambique durante o século 19. A cultura dos nativos e a cultura dos colonizadores dividem o mesmo espaço e tempo entre chuvas e trovoadas.
A trilogia aborda a etapa final do nomeado Estado de Gaza, o segundo maior império da África comandado por um africano, o imperador Ngungunyane, que governou o sul da região de Moçambique no século 19. O exército dos colonizadores portugueses derrotou Ngungunyane em 1895, que foi feito prisioneiro e encarcerado em Açores.
Segundo historiadores, Portugal criou uma grande farsa sobre esse episódio. Portugal estava pressionado pela Inglaterra por ser incompetente em seu domínio sobre as colônias africanas. Para maquiar a realidade e criar uma boa fachada de colonizador eficiente para a Europa, investiu em derrubar o império de Ngungunyane que já estava em total decadência e em frangalhos. Algo como chutar cachorro morto para inglês ver.
Em sua pesquisa histórica, Mia Couto encontrou diferentes versões as ações de guerra do império português. E utilizou a melhor das abordagens, a ótica de todos os envolvidos: colonizadores e colonizados. O resultado é a mesma eficiência narrativa encontrada em outras obras do autor, uma união entre mitologia e realidade, entre fantasia e fatos, entre folclore e história, entre o onírico e a vigília.
"Mulheres de Cinzas" é um romance constituído por suas narrativas paralelas sobre um mesmo acontecimento. De um lado está o relato de Imani, uma africana de quinze anos que atua como intérprete entre os nativos e os militares portugueses. De outro está o relato de Germano, um sargento do exército português que condenado por rebeldia é enviado para Moçambique. Os próximos dois volumes da trilogia devem ser publicados até 2018.
O contato entre Imani e Germano reflete a complexidade das relações entre dois mundos, o europeu e o africano. Imani, apesar de viver sob os deuses da aldeia, é educada pela religião cristã dos portugueses. Ela vive entre dois mundos, entre a cultura dos colonizadores e dos colonizados, entre os deuses dos dominados e os deuses dos dominadores. Sua família também reflete essa dubiedade. Um dos irmãos abraça a luta pelos nativos, o outro irmão abraça a batalha dos colonizadores.
Mia Couto nasceu na cidade de Beira, Moçambique, em 1955. Biólogo de formação, é autor de mais de vinte obras, envolvendo contos e romances. Na última década recebeu um punhado de prêmios literários em várias partes do mundo. Agraciado com o prêmio Camões de 2013, é considerado o segundo autor de língua portuguesa mais propenso a ganhar o Nobel de Literatura depois de José Saramago. Aos poucos vem se tornando um dos escritores mais populares da língua portuguesa pelo mundo. Não seria exagero dizer que Mia Couto está fazendo com a literatura moçambicana aquilo que Guimarães Rosa fez com a literatura brasileira.
"Mulheres de Cinzas" faz lembrar que, num mundo tão grande com todos os mares e continentes, torna-se muito difícil admitir que as coisas mais básicas do mundo possam ter um dono. Afinal, a quem pertence um rio? A quem pertence uma árvore? A quem pertence a terra que os rios tocam e as árvores fincam suas raízes?
A possível resposta pode ser encontrada, como num realismo fantástico, numa das falas da personagem Imani: "No princípio de tudo, quando a terra ainda não tinha dono, os rios e as nuvens corriam debaixo do chão. Chegou o demônio e espetou o dedo na areia. A unha comprida esgravatou nas profundezas. Procurava pedras que brilhavam a luz do sol. As nossas mães pediram aos deuses que protegessem as estrelas que haviam escondido embaixo da areia. Pediram que o diabo abdicasse de arrancar os brilhantes minerais e desistisse de os entregar à ganância dos que queriam enriquecer. Mas o diabo não desistiu. Porque ele tinha, entre os poderosos, quem rezasse por ele. E quebraram-se-lhe as unhas e sangraram os seus dedos magros e longos. Pela primeira vez no ventre da Terra se coagulou o contaminado sangue do demônio. As riquezas do subsolo estavam amaldiçoadas. As nuvens e os rios abandonaram o ventre do planeta para escaparem dessa maldição. E tornaram-se as veias e os cabelos da Terra. Esta é a histórias dos rios. Poderão roubar suas águas até secarem. Mas não a sua história."


SERVIÇO
"Mulheres de Cinzas – As Areias do Imperador 1"
Autor – Mia Couto
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 344
Quanto – R$ 39,90

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