A lista de coisas que a humanidade não conseguiu resolver de maneira satisfatória ao longo do tempo é vasta. Contradições e antagonismos aumentam a lista. Algumas delas marcam presença em "Entre Amigos", livro de Amós Oz lançado pela editora Companhia das Letras.
As relações entre o público e o privado, o íntimo e o comunitário, a solidão e a socialização, são visitadas de maneira cativante pelo escritor israelense. Relações que só podem ser percebidas com intensidade quando experimentadas na vida cotidiana. Não apenas no campo do ideal, mas no território do real.
"Entre Amigos" é uma obra que trafega entre dois gêneros, o conto e o romance. Em cada parte do livro, Amós Oz narra uma história em si, a trajetória de determinado personagem, assim as partes podem ser lidas de maneira independentes. Mas, se lidas no conjunto, assumem a forma de um romance onde o leitor tem uma visão mais abrangente. As várias histórias formam uma história maior onde personagens se cruzam. Figuras que vivem num mesmo lugar, num mesmo tempo, mas levam vidas interiores completamente distintas.
Todos habitam um kibutz israelense da década de 50. Vivem um ideal agrícola comunitário pautado por princípios socialistas e libertários. São figuras de diferentes idades, com diferentes origens que se unem para viver uma nova experiência social pautado pelo trabalho e pela igualdade de direitos e deveres.
O drama, mais do que esperado, é que quando a parte coletiva está devidamente estruturada, o privado e o íntimo ganham maiores proporções, tiram as garras de fora, ocupando o espaço das sombras. Essa contradição é trabalhada por Amós Oz ao lado de outra contradição: as relações entre sociabilidade e solidão. Apesar de inseridos num processo coletivo, os personagens de "Entre Amigos" vivem imersos numa solidão exemplar.
Dois deles, os mais velhos, merecem destaque. Tzvi é o jardineiro do kibutz capaz de criar jardins maravilhosos. Mas sua grande mania é contar para todos os desastres que vê no rádio, jornal e televisão. Terremotos, acidentes, enchentes, desabamentos e desastres acontecidos em todo o mundo. Solitário, não consegue se relacionar com o outro a não ser através do relato de desgraças. Martin, na casa ao lado, é um velhinho fiel a seus princípios, capaz de qualquer coisa para erguer um mundo pautado pela paz. Sobrevivente do holocausto e professor de esperanto, acredita que o mundo todo pode viver numa fraternidade universal. Mas, apesar dos ideais, vive imerso numa solidão contínua e fechado ao contato emocional.
Entre os dois velhinhos está uma série de jovens que vive outras contradições. Precisam controlar o desejo de viver coisas que o kibutz não pode oferecer. Devem controlar a libido para não casar e descasar a cada mês. Convém controlar o instinto de violência como forma mais imediata de resolver as coisas. Enfim, coletivo e intimidade surgem na mesma arena.
O grande mérito de Amós Oz está em conseguir colocar tudo isso, lado a lado, uma coisa dentro da outra, da maneira mais suave possível, sem nenhuma espécie de rispidez narrativa. Sua intenção reside em apresentar acontecimentos como vida. E a interpretação dos acontecimentos fica nas mãos do leitor.
"Entre Amigos" é uma forma de revelar que uma existência comunitária não tem nada ver com sonho. Se tratada como um ideal coletivo, começa ser vista como sonho nas relações mais cotidianas e estará fadada ao fracasso. Uma existência comunitária se constrói com a realidade, não apenas com sonhos.
Nascido em Jerusalém em 1939, Amós Oz entrou para um kibutz na adolescência após fugir de casa. Viveu no lugar ao longo de duas décadas. Autor de 28 livros, escrevendo sempre em hebraico, é considerado um dos grandes autores israelenses da atualidade.

SERVIÇO
"Entre Amigos"
Autor – Amós Oz
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Paulo Geiger
Páginas – 136
Quanto – R$ 34 e R$ 23,50 (e-book)

"O homem é, por natureza, bom e gentil. São só as distorções da sociedade que o empurram para o egoísmo e a crueldade." E acrescentou: "Todos nós temos obrigação de voltar a ser inocentes como crianças." De onde estava, junto à porta, Osnat respondeu: "Crianças são criaturas mimadas, egoístas e cruéis. Exatamente como nós." Mas nem ele nem ela tinham filhos e como não queriam se despedir em desacordo, nenhum dos dois acrescentou qualquer coisa a essa discordância e só se desejaram uma boa noite. Depois que ela saiu, a pequena luz continuou acesa junto à cama de Martin. Aproveitando que Osnat tinha ido embora, ele tirou um maço de cigarros de sob o travesseiro, fumou meio cigarro, amassou o toco no cinzeiro, pigarreou um pouco e devolveu o rosto à máscara de oxigênio. Sua respiração dentro da máscara era rápida de superficial, enquanto lia sentado, as costas apoiadas nos travesseiros, um livro escrito por um conhecido anarquista italiano, no qual dizia que a autoridade e a obediência a ela eram contrárias à natureza humana. Depois cochilou sentado, a máscara cobrindo a metade inferior do rosto, mas não apagou a luz. Até o amanhecer a luz junto a sua cama ficou acesa, apesar de Martin sustentar a ideia de que o desperdício e equiparável à exploração e a economia é um dever moral. Mas a escuridão o apavorava. (Fragmento de "Entre Amigos" de Amós Oz)
mockup