Os parques temáticos espalhados pelo mundo possuem o objetivo de divertir e propiciar o prazer a milhares de turistas. Essa diversão está vinculada ao que as pessoas consideram como fonte de lazer. Mas há pessoas que sentem necessidades diferentes de lazer, homens que buscam prazer fora da chamada normalidade.
Para esses homens, um grande empresário, com visão radical de mercado e um punhado de ousadia, poderia criar um parque temático para aquecer o sangue das veias. Um lugar onde tivessem a oportunidade de viver a aventura de realizar um sequestro ou um assalto a mão armada. Um lugar onde tivessem a possibilidade de tirar rachas com carros envenenados e atropelar alguns mendigos pelo caminho. A possibilidade de diversão pode ser imensa, selvagemente urbana, repleta de atos radicais que assombram o imaginário dos habitantes das grandes cidades.
Um parque temático desse tipo existe. Pelo menos no universo literário. Ele está em ''Hotel Hell'', novela do escritor mato-grossense Joca Reiners Terron publicada pela Editora Livros do Mal. O cenário é a cidade de São Paulo, com todo a fauna possível de malucos e cidadãos vivendo à beira do caos. Nele, personagens fantásticos misturam animalidade e civilização do café da manhã à última refeição.
''Hotel Hell'' possui uma estrutura fragmentada, toda formada por vozes de personagens distintos. Vozes que apresentam um recorte da realidade em que estão inseridas com a intenção de traçar um painel pessimista do futuro. Assim, o texto instala a possibilidade de que a cidade em sua totalidade é um parque temático e não apenas uma área restrita reservada para as íntimas radicalidades.
O ponto alto de ''Hotel Hell'' é sua galeria de personagens exóticos. Cada um com sua história particular que formam o mosaico narrativo. Um deles, por exemplo, é um homem que visita todas as ''televisões de cachorro'' em busca de um frango assado que traga em seu interior um coração. Esse frango seria o portador de uma revelação divina, um messias que trará a terra prometida.
Outra obra de Joca Terron lançada recentemente é ''Curva de Rio Sujo''. O livro reúne contos que apresentam as experiências mais marcantes e sufocantes da infância do narrador. Histórias familiares ocupam lugar de destaque na maioria dos textos, simbolizando uma espécie de acerto de contas com o passado, com a infância e a juventude. A região de fronteira do estado do Mato Grosso permeia o imaginário do narrador.
É interessante notar que, se de um lado ''Hotel Hell'' descreve dramas de personagens inseridos num grande sistema social - uma cidade caótica - atormentados como um vulcão próximo da erupção, de outro ''Curva de Rio Sujo'' apresenta personagens inseridos num pequeno sistema social - uma família conturbada - igualmente atormentados como um furúnculo perto da explosão.
A diferenças ficam por conta da subjetividade abordadas no interior das duas obras. Em ''Hotel Hell'' há uma impulso corrosivo, temperado pelo sobrevivência num ambiente hostil, que oculta as tragédias pessoais. Nos contos de ''Curva de Rio Sujo'' há um impulso psicológico, pelo sobrevivência num ambiente familiar que dissimula as hostilidades, que exige um acerto de contas com a memória pessoal.
Embora seja possível vislumbrar semelhanças, ''Hotel Hell'' e ''Curva de Rio Sujo'' são trabalhos bem distintos. Tanto do ponto de vista da linguagem como do ponto de vista do conteúdo. Embora ''Hotel Hell'' tenha a chance de promover um maior impacto e gerar discussões, os contos de ''Curva de Rio Sujo'' oferecem uma abordagem mais sutil das intimidade descartadas ao longo da existência de um homem. E mesmo descartadas, ocupam um lugar no escuro da mente.
Serviço:
- ''Curva de Rio Sujo'' de Joca Reiners Terron, Editora Planeta, 136 páginas, 35,00.
- ''Hotel Hell'' de Joca Reiners Terron, Editora Livros do Mal, Ilustrações de Félix Reiners, 120 páginas, R$ 33,00.

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