LEITURA - Um ego fora de órbita
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Em 1981 surgiu nas livrarias um romance que despertou a atenção da moçada. Lançado dentro da lendária coleção ''Cantadas Literárias'' da editora Brasiliense, chamava-se ''Tanto Faz''. O autor, Reinaldo Moraes, era um escritor estreante completamente desconhecido.
O pessoal encontrou nas páginas de ''Tanto Faz'' algo completamente diferente da literatura brasileira conhecida. Uma postura desencanada em relação à seriedade do mundo. Um jeito de chutar o balde com os dois pés da urgência da vida. Uma narrativa anárquica que acompanhava a pirada pulsação do personagem. Em pouco tempo a obra se tornou uma referência literária da década de 80.
O romance narrava as peripécias de Ricardo, um paulistano que vê uma bolsa de estudos em Paris cair, como mágica, em seus braços. Na capital francesa, é abatido por um incandescente acesso de sinceridade. Abandona os estudos para se dedicar à vagabundagem, total e irrestrita. Tudo devidamente regado a sexo, drogas, álcool e bom humor.
Após o sucesso de ''Tanto Faz'', Reinaldo Moraes publicou ''Abacaxi'' (L&PM, 1985), uma espécie de continuação das peripécias de Ricardo. Foi um daqueles típicos fracassos editorias. Para desapontamento da moçada, o romance não tinha o mesmo ritmo, nem a mesma pegada de ''Tanto Faz''.
Após ''Abacaxi'', Reinaldo Moraes ficou praticamente duas décadas sem publicar um único livro. Sumiu do mapa. Reapareceu discretamente com o romance infanto-juvenil ''A Órbita dos Caracóis'' (Companhia das Letras, 2003) em seguida com o volume de contos ''Umidade'' (Companhia das Letras, 2005), sem nenhum alarde.
Agora Reinaldo Moraes recoloca a boca no trombone com ''Pornopopéia'', seu novo romance lançado pela editora Objetiva. Nele, o escritor paulistano retoma a pegada de ''Tanto Faz'' com muito mais propriedade e um oceano bem-humorado de peculiares digressões. Uma das características da obra está no humor. Inundada de situações hilárias, impossível o leitor não rir a cada página.
''Pornopopéia'' (cujo título é um claro sarro em relação à clássica teoria poética da ''melopéia'', ''fanopéia'' e ''logopéia'' desenvolvida por Erza Pound), narra as peripécias de Zeca, um cineasta marginal autor de um filme só. Quarentão, ganha uns trocados fazendo vídeos institucionais e pornôs. Sustentado pela esposa, passa o tempo cultivando o ócio intuitivo regado a muito bar, sexo e drogas.
O narrador de ''Pornopopéia'' é o próprio Zeca louco de cocaína grande parte do tempo. Com bom humor, Reinaldo Moraes cria uma narrativa que reproduz a viagem cerebral do personagem impulsionada pelas drogas, pelo álcool, e pelo o irrefreável desejo sexual. O resultado é uma escrita que provoca no leitor a sensação de velocidade exacerbada, algo a mil por hora que sempre tende à digressão.
Outra característica do romance está em ser calcado praticamente na linguagem oral. O autor leva essa intenção às últimas consequências numa posição ousada: condensa a oralidade das ruas e botecos, saturada de trocadilhos e palavrões, sem falseamento. Nesse sentido realiza um irônico retrato da atualidade.
A figura de Zeca representa o quarentão que não cresceu, aquele sujeito que vive como se tivesse 20 anos de idade se lambuzando de inconsequências. Detentor de um individualismo descomunal, o prazer imediato sempre está em primeiro lugar. As pessoas com quem se relaciona são encaradas apenas como fonte de prazer e diversão imediata.
Ironicamente, em ''Pornopopéia'', o personagem principal não vive nenhum tipo de transformação em todo o romance. Não há mudança possível capaz de tocá-lo. Não há situação, fato ou acontecimento capaz de mudar um centímetro sua trajetória egóica. O engraçado e satírico retrato das órbitas de um ego em torno de si mesmo e, simultaneamente, completamente fora de órbita.
SERVIÇO
- Pornopopéia
Autor - Reinaldo Moraes
Editora - Objetiva
Quanto - R$ 54 (480 pág.)
''Ok, chega de papo. É só dirigir a porra da sua mente pra nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. Podia ser qualquer outro tema, os cristais de Maurício de Nassau, a cavalgada das Valquírias, a vingança dos baobás contra o Pequeno Príncipe. Que diferença faz? Pensa que são os embutidos de frango de Nassau, a cavalgada das mortadelas, a vingança dos salsichões contra o Pequeno Salame.''
(Fragmento de 'Pornopopéia' de Reinaldo Moraes)


