Música e futebol. Não tudo misturado, mas tudo devidamente separado. Esses são os dois grandes temas eleitos pelo escritor inglês Nick Hornby para sua literatura. Duas coisas que impulsionam obsessões em multidões. Gente completamente normal e gente irremediavelmente maluca.
O primeiro livro publicado pelo escritor, "Febre de Bola" (1992), traz as memórias de Hornby como apaixonado torcedor de futebol, em especial pelo Arsenal (time de futebol inglês sediado em Londres). Segundo a lenda, Nick Hornby, nascido em 1957, teria se tornado um fanático torcedor do Arsenal para superar o trauma do divórcio dos pais quando tinha 11 anos de idade.
A narrativa traz um adolescente, com a cabeça cheia de dramas familiares, que encontra no futebol um mundo sem dramas, repleto de diversão e camaradagem. O esporte passa a ser encarado como uma metáfora da existência e a passagem da juventude para a vida adulta algo a ser eternamente adiado.
O segundo livro, o romance "Alta Fidelidade" (1995) deu projeção internacional a Nick Hornby. E trata-se de sua grande obra. Narra a trajetória de Rob, um sujeito que, aos 35 anos de idade, continua tão perdido no mundo quanto quando tinha 15 anos. Fanático por rock e dono de uma loja de discos, vive a música como principal elemento que o une ao mundo. Transformado em filme em 2000 por Stephen Frears, com John Cusack no papel principal, o romance ganhou projeção mundial.
"Alta Fidelidade" e "Febre de Bola" voltam às livrarias relançados pela editora Companhia das Letras com nova tradução. As primeiras edições brasileiras dos livros saíram pela editora Rocco, respectivamente em 1998 e 2000, disponíveis hoje apenas em sebos. O grande destaque fica por conta de "Alta Fidelidade", obra que retrata, de maneira extremamente bem humorada, marmanjos que se recusam a entrar na vida adulta.
Tudo começa quando Rob recebe um pé na bunda da namorada Laura, que mora em seu apartamento há dois anos. A moça, em ascensão profissional num escritório de advocacia, foge com o vizinho do andar de cima. Arrasado, Rob faz uma lista com os cinco maiores pés na bunda que recebeu ao longo da vida. Revisitando o passado, remonta sua própria história com um ferino humor autodepreciativo. Sua missão reside em reconquista a namorada.
Dono de uma pequena e falida loja de vinis de rock, Rob trabalha ao lado de dois amigos funcionários lunáticos que não conseguem pensar em outra coisa a não ser música. Passam os dias fazendo listas dos cinco maiores solos de guitarra, as cinco melhores músicas da década, as cinco melhores bandas de apenas dois discos gravados, a cinco maiores canções para funeral, etc. Um "top five" como trilha sonora para qualquer ato, qualquer acontecimento, qualquer sentimento.
"Alta Fidelidade" é uma contagiante história sobre o fracasso. Não a história do fracasso de uma geração imerso do universo pop, mas o fracasso enquanto escolha deliberada diante da massacrante propaganda do sucesso. Tudo aquilo capaz de arrebanhar multidões merece ser ironizado e desprezado pelos personagens.
"Alta Felicidade" também é uma história sobre homens que se recusam a tornar-se adultos de acordo com o senso comum. Fogem do mundo adulto como o diabo da cruz. A ideia da eterna juventude, distante de qualquer responsabilidade, é defendida com unhas e dentes. Uma espécie de mundo à parte, onde os desafios e as pedreiras da existência adulta são jogados de lado. Ou debaixo do tapete.
Na verdade, pessoas comuns que desejam viver sem alarde, discretamente em seus gostos e desgostos. Sem grandiosidades, sem grandes aspirações, sem nenhum desejo de sucesso. Apenas permanecer próximos daquilo que gostam. Livros, discos, filmes no lugar dos ursinhos de pelúcia.
Enquanto romance, "Alta Fidelidade" já foi chamado de comédia romântica. Também foi chamado de retrato de uma geração cuja única referência foi o rock. A questão não reside mais no risco do disco, pulando e repetindo o repetido. A questão reside na descoberta de um disco inteiro dentro do próprio risco.

Serviço:
"Alta Fidelidade"
Autor - Nick Hornby
Editora – Companhia das Letras
Tradução - Christian Schwartz
Páginas – 312
Quanto – R$ 39

"Febre de Bola"
Autor - Nick Hornby
Editora – Companhia das Letras
Tradução - Christian Schwartz
Páginas – 352
Quanto – R$ 39

De qualquer forma, faço um teste comigo mesmo, de vez em quando. Dou uma olhada no tapume da loja em frente pra ter certeza de que já ouvi falar das bandas cujos shows estão anunciados pra breve, mas a triste verdade é que estou ficando desatualizado. Costumava conhecer todas, cada um dos nomes, por mais idiotas que fossem, não importando o lugar em que a banda ia tocar. E aí, três anos atrás, quando parei de devorar palavra por palavra das revistas especializadas, comecei a perceber que não mais reconhecia as bandas se apresentando em pubs e em casas menores; no ano passado, algumas bandas cujos nomes não significavam absolutamente nada pra mim tocaram na Forum. Na Forum! Uma casa com capacidade pra mil e quinhentas pessoas! Mil e quinhentas pessoas indo ver uma banda da qual eu nunca tinha ouvido falar! A primeira vez que aconteceu, passei a noite inteira deprimido, provavelmente porque cometi o erro de confessar minha ignorância pro Dick e pro Barry. O Barry quase explodiu em escárnio; o Dick baixou os olhos para bebida que estava tomando, constrangido demais até pra me olhar nos olhos. (Fragmento de "Alta Fidelidade" de Nick Hornby)
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