Dois garotos na beira do rio. Um deles sabe nadar. O outro, mais novo, não. Deseja aprender, mas tem medo.
O mais velho decide colocar em prática o mesmo método que utilizou para aprender a nadar. A receita é quase mágica. Basta engolir uma piabinha viva e imediatamente pular na água batendo braços e pernas.
Os dois garotos vasculham a beira do rio em busca do peixinho e nada. Quando estão quase desistindo, conseguem apanhar uma piabinha. Rapidamente o menino coloca o peixinho vivo na boca. Engasga, mas consegue engolir. Rapidamente pula no rio. Bate pernas e braços e é levado pelas águas.
Esse enredo emblemático está em "Piabinha", conto do escritor mineiro Luiz Vilela que integra o livro "O Fim de Tudo". Publicada originalmente em 1973, a obra recebeu o Prêmio Jabuti de 1974. Semana passada a editora Record lançou a segunda edição da obra, que há muito tempo não era encontrada nem nos sebos.
A editora Record, a partir de 2014, deu início ao projeto de republicação das obras de Luiz Vilela. Já foram relançados os romances "Perdição" e "Bóris e Dóris", e lançado o inédito "Você Verá" (contos).
Há um bom tempo se tornou impossível falar do gênero conto na literatura brasileira sem falar de Luiz Vilela. É quase uma unanimidade considerá-lo um dos maiores contistas brasileiros. Há montanhas de teses acadêmicas sobre sua obra. Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, há até o Grupo de Pesquisa Luiz Vilela, dedicado exclusivamente ao estudo de sua literatura em mestrados e doutorados.
O poeta Carlos Drummond de Andrade considerava o conto "A Volta do Campeão", que integra "O Fim de Tudo", uma obra-prima da literatura brasileira. A narrativa retrata a trajetória de um velhinho que, após problemas de saúde, é empurrado para a aposentadoria. Vagando pelas praças do bairro onde reside, leva uma vida triste e sem nenhuma perspectiva. Até o dia em que encontra um grupo de meninos jogando bilocas (denominação mineira para bolinhas de gude). Assistindo ao jogo dos meninos entra em êxtase e também começa a jogar, lembrando-se dos velhos tempos de garoto, quando era um campeão de biloca.
Aos poucos uma batalha de biloca se instaura entra a molecada, com o velhinho se transformando num herói do jogo. Esse acontecimento altera sua disposição diante da vida, que passa a ter um novo sentido. O problema é que a família começa achar que o velhinho está batendo os pinos, fazendo papel de ridículo jogando biloca com a molecada. E fatalmente a família acaba destruindo sua nova disposição diante da vida.
A literatura de Luiz Vilela está pautada pela oralidade como reprodução da realidade. A estrutura narrativa sempre caminha pela limpidez e concisão, sem adjetivos ou firulas. Muitos o consideram um autêntico "mestre do diálogo", pela sua capacidade de criar diálogos exatos e sugestivos. Sua arte está em não explicar a história que narra, mas revelar as implicações que ela abarca e dimensiona.
Luiz Vilela nasceu em 1942, em Ituiutaba, interior de Minas Gerais. Formado em filosofia, publicou seu primeiro livro, "Tremor da Terra", com 24 anos de idade. Atuando como jornalista, viveu em várias capitais brasileiras e do exterior. Na década de 1990 voltou a residir em sua cidade natal, onde permanece até os dias de hoje. Autor de dezenas de livros, várias de suas histórias foram transformadas em filmes (longas e curtas). A adaptação mais conhecida é "Brava Gente", minissérie realiza pela TV Globo em 2001, baseada do conto "Tarde da Noite".
As histórias que integram "O Fim de Tudo" possuem a capacidade de encarar com simplicidade as complexidades do mundo. Já no inicio da década de 1970, Luiz Vilela abordava temas que seriam recorrentes décadas mais tarde. Engolir um peixe para nadar, apostar que um mendigo não consegue andar, perceber que a velhice pode se transformar num fardo, constatar que a poluição vai acabar com tudo, encarar a vida como uma profissão obsoleta, amar mais do que a hipocrisia consegue imaginar e outras coisas. Tudo isso num dia extremamente simples num mundo estranhamente complexo.

Serviço:
"O Fim de Tudo"
Autor – Luiz Vilela
Editora – Record
Páginas – 240
Quanto – R$ 34,90

(...) Completamente chumbado – disse o segundo rapaz, tomando um gole de cerveja. - Por isso é que eu não gosto de dar esmola pra esse pessoal. Dar esmola pra quê? Pra eles beberem pinga? - Não são todos – disse o terceiro. - Esse aí, por exemplo: ele trabalha, cata papel. - Não sei é como ele está aguentando o saco nessa brasa toda – disse o primeiro. O homem então deixou cair o saco: o saco escorregou das costas e caiu, espalhando papéis, trapos, um par de sapatos velhos. - Eu não disse? - Poxa - disse o segundo, - esse está ruim mesmo, ele deve ter lavado a égua. Quero ver é se ele dá conta de chegar até aqui. - É... - Taí: vamos valer uma Brahma? Aposto uma Brahma que ele não chega até aqui. E ainda dou uma colher de chá: em vez de ser até aqui, fica sendo até aquela arvinha ali. Se ele chegar até a arvinha, eu perco. Vamos? - Até a arvinha eu topo. Uma Brahma né? - É uma Brahma. - Está feito. - Você vai entrar pelo cano - disse o terceiro. - Olha lá... Olharam: o homem escorregava, foi escorregando devagar pelo tapume, até ficar sentado no chão. - Sacanagem - disse o que topara a aposta enquanto o outro dava uma gargalhada. – Porra, só falta o filho da mãe resolver deitar ali agora; só falta isso... Esperaram. De repente a cabeça do homem tombou. E então o homem foi tombando lentamente, até ficar de borco no chão. - Puta merda... – disse o que ia perder, enquanto o outro dobrava de rir. O terceiro havia se calado e observava. Então se levantou. - Aonde você vai? – perguntou o que perdera. Ele não respondeu; foi andando em direção ao homem. Parou ao seu lado. Chamou-o. Agachou-se e pegou-lhe o braço. Então voltou-se e olhou para os dois. O que estava rindo parou de rir e o outro se levantou e ficou dizendo nervosamente: - Ele está dizendo que o cara está morto; não é possível, ele está dizendo que o cara está morto. (Fragmento do conto "Pinga", que integra "O Fim de Tudo", de Luiz Vilela)
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