LEITURA - Um amor de obscenidades
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Quando alguém imagina que não há mais novidade em se tratando de James Joyce (1882 1941), o mercado editorial prova o contrário. No final de 2012 a editora Iluminuras colocou nas livrarias três novos livros do escritor irlandês. Para o final de 2013 a editora Companhia das Letras promete lançar "Finns Hotel", obra inédita composta por onze fábulas encontradas recentemente nos arquivos de Joyce.
"Epifanias", "De Santos e Sábios" e "Cartas a Nora", lançados pela Iluminuras, trazem três diferentes facetas da escrita de James Joyce. São obras organizadas após sua morte por pesquisadores e compiladores de seu espólio.
"Epifanias" é formado por 40 breves fragmentos de textos que o escritor deixou como parte de um projeto não concluído. Uma parte deles é formada por diálogos que partem de nenhum lugar para chegar a lugar nenhum. Outra parte é formada por prosas poéticas.
"De Santos e Sábios" reúne conferências, artigos, ensaios, cartas, poemas, anotações e outros tipos de textos escritos por Joyce ao longo da vida e publicados nos mais diferentes lugares. Trafegando entre abordagens estéticas e políticas, os temas são múltiplos. Há de tudo, até um artigo sobre a febre aftosa. Não é brincadeira. Em 1912, quando a Inglaterra ameaçava suspender a compra de carne bovina da Irlanda por suspeita de aftosa, o escritor publicou um artigo na imprensa afirmando que o caso era uma questão política, não sanitária.
Para quem deseja bisbilhotar a intimidade amorosa e sexual de James e sua esposa, "Cartas a Nora" é um prato cheio e picante. O volume traz cartas enviadas à amada entre 1904 a 1909. A primeira delas retrata justamente o dia em que Joyce conheceu Nora, uma jovem camareira que se tornaria sua companheira por toda a vida e mãe de seus filhos. Paixão à primeira vista.
Esse dia teria tanta importância para Joyce que todo o enredo de "Ulisses", seu romance mais cultuado, se passa justamente nesse dia, 16 de junho de 1904. Alguns pesquisadores apontam que, na verdade, teria sido esse o dia em que o casal teve a primeira relação sexual. Outros demonstram que, por ser virgem, Nora teria apenas masturbado o amado nesse dia, levando-o aos céus essa tese seria comprovada pelas cartas.
O fato é que a correspondência entre Joyce e Nora é carregada de um erotismo sem firulas. Tudo cru, repleto de secreções e obscenidades. Alguns leitores podem até se incomodar e considerar as cartas pornográficas, mas é preciso se ater a um detalhe: as cartas fazem parte de um jogo erótico estratégico. As picantes correspondem ao período em que Joyce ficou longe da amada. Ele trabalhando na Itália e ela na Irlanda. Nesse período de corpos separados, Nora não desejava que o amado caísse nas mãos das prostitutas. Assim estimulava a correspondência erótica como fonte de masturbação no sentido de saciar a fúria do desejo. Principalmente a do amado.
Nora não era uma mulher intelectualizada. Segundo consta, nunca abriu "Ulisses" para ler, nem outras obras criadas pelo esposo. Era uma mulher que, pela simplicidade, teria entrado no jogo erótico por entendimento amoroso e prático: segurar o marido pela libido. E mesmo quando a tara do amado sobre cai sobre sexo anal, ela não perde o rebolado, embarca no jogo erótico de maneira recíproca.
Nas cartas, Joyce exibe a alternância entre a obscenidade e os bons modos. Se numa carta escancara desejos e taras de maneira crua a direta, na próxima correspondência pede desculpas, se coloca de joelho no milho pelas palavras obscenas. Na sequência escreve outra carta ainda mais erótica, transpirando sexo em todas as letras e, na carta seguinte, novamente expande as desculpas pela depravação. E assim segue. Nada mais do que o amor como ele é na intimidade, entre a fúria do desejo e os freios da moral.
Serviço:
"Cartas a Nora"
Autor James Joyce
Editora Iluminuras
Organização e tradução Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante
Páginas 152
Quanto R$ 38
"Epifanias"
Autor James Joyce
Editora Iluminuras
Tradução Piero Eyben
Páginas 112
Quanto R$ 35
"De Santos e Sábios"
Autor James Joyce
Editora Iluminuras
Organização Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante
Tradução André Cechinel, Caetano Galindo, Dirce W. de Amarante e Sérgio Medeiros
Páginas 328
Quanto R$ 47
FRAGMENTOS:
"Ao lado e no interior desse amor espiritual que sinto por você há também uma anciã selvagem e bestial por cada centímetro do teu corpo, por cada parte secreta e indecente dele, por cada um dos teus odores e atos. Meu amor por você me permite rogar ao espírito de eterna beleza e ternura refletido nos teus olhos ou te lançar debaixo de mim deitada sobre sua barriga macia e te foder por trás, como um porco montado numa porca, me gloriando no próprio fedor e no suor do teu traseiro, me gloriando na vergonha exposta do teu vestido virado para cima e da tua calça branca de mocinha e no tumulto das bochechas ardentes e no cabelo emaranhado."
(Fragmento de "Cartas a Nora" de James Joyce)
***
"Opacas nuvens cobriram o céu. Onde três estradas se encontram e diante de uma praia pantanosa um cachorro grande está em repouso. De tempos em tempos ele levanta o focinho no ar e solta um prolongado uivo triste. As pessoas param para olhá-lo e seguem adiante, alguma permanecem, presas, pode ser, por essa lamentação em que eles querem ouvir a elocução de seus próprios pesares que uma vez tiveram em suas vozes, mas que agora estão mudos, um servo de dia trabalhosos. Chuva começa a cair."
(Fragmento de "Epifanias" de James Joyce)


