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PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de fevereiro de 2011
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha2 
Fragmentação de tempo e narrativas paralelas são duas das principais características da linguagem da prosa contemporânea. Corte, simultaneidade, subjetividade e caos. Uma linguagem que se revela como tradução das complexidades do mundo atual.
O escritor norte-americano Michael Cunningham, nascido em 1952, é um dos nomes que estão apostando nessa linguagem literária. Sua obra exemplar nessa direção, e a mais conhecida, é o romance As Horas (Companhia das Letras, 1999). Transformado em filme por Stephen Daldry em 2002, recebeu um punhado de indicações para o Oscar.
As Horas narra fragmentos da existência de três mulheres que vivem em tempos e espaços diferentes. O ponto de ligação entre as três histórias ocorrem de maneira totalmente subjetiva. A própria literatura, em três níveis completamente distintos, atua como elemento de conexão das narrativas.
Em seu romance mais recente publicado pela editora Companhia das Letras, Dias Exemplares, Michael Cunningham utiliza a mesma estrutura desenvolvida em As Horas. Um típico e descarado xerox. Também narra três histórias paralelas em tempos e espaços diferentes. Também utiliza a literatura, igualmente em três níveis distintos, como elemento de conexão das narrativas.
A reprodução de uma estrutura narrativa que deu certo não representa nenhum tipo de problema, pelo contrário, representa solução. O problema aparece quando novo conteúdo não se ajusta à estrutura que deu certo com o conteúdo anterior. Algo como a tentativa de colocar um elefante dentro de um Fusca.
Em Dias Exemplares, Cunningham desejava revelar as pirações humanas, em especial a dos americanos, em três tempos e espaços diferentes. A tese seria a de que as pirações podem até mudar de forma ao longo dos séculos, mas sua essência se perpetua ao longo do tempo.
A primeira narrativa de Dias Exemplares, traz a história de um garoto esquisito que, após a morte no irmão mais velho num acidente de trabalho, assume a vaga deixada pelo irmão. Em pleno século 19, época de industrialização selvagem, o garoto tem memorizada na cabeça a poesia de Walt Whitmam (1819 - 1892) de maneira descontrolada. Os versos saem de sua boca de maneira descontroladas, ao acaso, inesperadamente nas situações mais impróprias.
A segunda traz a história de uma psicóloga que, após o ataque terrorista de 11 de setembro, trabalha atendendo telefonemas com denuncias de novos atentados. Certo dia descobre que há vários garotos-bombas explodindo a cidade sem nenhum sentido objetivo. Garotos doutrinados pela poesia de Walt Whitman. Acreditando que todos são iguais, os terroristas percebem que não há necessidade de escolher quem assassinar.
A terceira narrativa se passa num futuro onde a terra, após a devastação ambiental, é habitada por homens, andróides e extraterrestres. Traz a história de um replicante que tem instalado em seu chip a obra completa de Walt Whitman. Perseguido pela polícia, ele desejar viver mais do que seu prazo de validade e sentir as coisas que os humanos sentem.
Fica claro que a poesia de Walt Whitman é o elemento que liga as três histórias. Michael Cunningham parece dizer que a subjetividade da poesia, ou da arte, seria o elemento que sustentaria a essência humana através dos séculos, através dos milênios.
A primeira história de Dias Exemplares é, sem dúvida, a mais bela do romance. Aquela que abarca um grau maior de sentidos. A segunda traz um tipo de paranóia surrada, mas ainda consegue oferecer surpresas com um final que salva a história de cair na piscina do piegas. Já a terceira história é melhor deixar de lado. Traz todos os clichês e lugares comuns da ficção científica. Patina em dizer algo que já foi dito centenas de vezes até mesmo por novelas das oito.
Dias Exemplares pode dar a impressão de ser um elefante dentro de um Fusca. Mas é possível ver que o animal dirige com a cabeça para fora da janela. A cabeça é a primeira história. Os nervos a segunda narrativa. O resto parece ser gordura.
Depois de algum tempo, uma flor desabrochou na mente de Lucas. Ele a sentiu: um desdobrar de pétalas, uma transformação de botão em flor aberta. A dor continuava lá, mas não esta mais dentro dele. A dor o deixara, assim como o espírito deixa o corpo dos mostos. Tinha se transformado numa cortina, tremeluzindo, como se cortinas pudessem ser feitas de vidro e o vidro fosse jaspeado de várias cores e minúsculas ocorrência de luz.
(Fragmento de Dias Exemplares de Michael Cunningham)
SERVIÇO
Dias Exemplares
Autor - Michael Cunningham
Editora - Companhia
das Letras
Tradução - José
Geraldo Couto
Páginas - 408
Quanto - R$ 65,00


