Algumas mentes possuem sintonias exemplares. Uma hora ou outra elas se unem e passam a viver imersas numa sintonia soberana. Essa união pode acontecer tanto em relações amorosas quanto em relações de amizade.
Mas como todas as uniões são passíveis de transformações, uma hora ou outra ocorre a desunião. A fratura. O estranhamento. E tudo que parecia doce e aconchegante torna-se amargo e áspero. Então a pergunta fatal aparece: como mentes até então unidas se tornam mentes complemente estranhas de uma hora para outra?
Para o escritor norte-americano Saul Bellow (1915–2005) a questão não é "como" isso acontece, muito menos "por que" ocorre. A questão central reside no "quando" se manifesta. Em seu romance "O Legado de Humboldt" essa reflexão surge de maneira evidente e coroada pela ironia das transformações culturais.
Publicado originalmente com sucesso em 1975, o livro impulsionou Saul Bellow a ganhar o Nobel de Literatura em 1976. Publicado no Brasil em 1977 pela editora Nova Fronteira, o romance passou a habitar apenas os sebos ao longo das décadas. Lançado recentemente pela editora Companhia das Letras com nova tradução, o volume volta às livrarias para revelar a sobrevivência do romance ao longo das décadas enquanto uma das obras-primas do escritor.
Lido nos dias de hoje, "O Legado de Humboldt" não parece ter o mesmo impacto e repercussão que teve na década de 70. Tornou-se um romance de referências culturais importantes apenas para os teóricos em defesa da história da literatura norte-americana. Apesar de conter uma narrativa extremamente inteligente e bem elaborada, a experiência da leitura se revela enfadonha. O tempo fez seus estragos.
Em "O Legado de Humboldt" Saul Bellow narra a relação de amizade literária entre o velho e consagrado poeta Humboldt e o jovem Citrine. Tudo começa quando Citrine, imerso em seu cotidiano enfadonho, entra em contato com os poemas de Humboldt. Num impulso maluco, o jovem cruza o país para conhecer o poeta que mudou sua vida, ou sua visão de vida.
Humboldt e Citrine tornam-se amigos inseparáveis. Mais do que isso, tornam-se mestre e pupilo quando Citrine decide se tornar um escritor. A relação entre os dois se fortalece ao longo de décadas até surgir um impasse. Com o passar do tempo e com as transformações culturais, o pupilo torna-se mais famoso que o mestre. Humboldt e sua literatura entram em decadência enquanto Citrine e sua literatura, enaltecidos pelo sucesso na Broadway, ganham fama e grana.
Nesse processo Humboldt enlouquece e acaba morrendo num sanatório, enquanto Citrine ganha mais projeção. Mas a sensação de poder faz com que Citrine se enrosque em infindáveis mulheres, dívidas, processos, divórcios, golpes, enroscos, buracos e malacos.
Saul Bellow apresenta o desenho de duas gerações de artistas metendo os pés pelas mãos em dois momentos culturais. E toda a sociedade ao redor, que aparentemente nada diz às duas gerações, avançando sobre suas vidas com a fúria dos leopardos. Literalmente se manifesta o fracasso do sucesso.
Saul Bellow nasceu no Canadá em 1915, filho de um casal judeu de imigrantes russos. Aos 7 anos de idade imigrou com a família para os Estados Unidos, fixando residência em Chicago, onde se naturalizou cidadão americano. Autor de mais de duas dezenas de livros, faleceu em 2005.
Em "O Legado de Humboldt" é possível encontrar alguma lucidez de que tudo muda para permanecer o mesmo. Para pior. Para melhor. As coisas mudam para ficarem iguais.

Serviço:
"O Legado de Humboldt"
Autor – Saul Bellow
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Rubens Figueiredo
Páginas – 526
Quanto – R$ 68 e R$ 40 (e-book)

"Muitas pessoas acham que a preguiça, um dos pecados capitais, significa indolência comum", comecei. "Pachorra. Sonolência. Mas a preguiça é um estado ocupado, hiperativo. Essa atividade rechaça o maravilhoso repouso do equilíbrio, sem o qual não pode haver poesia em arte nem pensamento – nenhuma das funções humanas mais elevadas. Esses pecadores preguiçosos não são capazes de se sujeitar à sua própria existência, como dizem alguns filósofos. Trabalham porque o repouso os apavora. A velha filosofia distinguia entre o conhecimento alcançado por esforço e o conhecimento recebido pela alma ouvinte, capaz de escutar a alma das coisas, e que chega a compreender o maravilhoso. Mas isso requer um vigor de alma fora do comum. Ainda mais quando a sociedade exige o nosso eu interior de forma crescente e nos infecta com sua inquietação. Ela nos arrasta para a distração, coloniza a consciência no mesmo ritmo em que a consciência avança. (Fragmento de "O Legado de Humboldt", de Saul Bellow)
mockup