LEITURA - Três livros que a poesia não esquece
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de maio de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Algo raro aconteceu no ano de 2013 no mercado editorial brasileiro: um volume de poesia frequentou as listas de livros mais vendidos no País. Um fato comparável a um raio cair na cabeça de um unicórnio escondido numa profunda caverna.
O responsável por tal façanha foi o paranaense Paulo Leminski (1944 1989) com "Toda Poesia". O livro, publicado pela editora Companhia das Letras, reunia a obra poética completa do poeta que estava fora das livrarias há mais de uma década. Era a primeira vez que todos os livros de poesia de Leminski apareciam num único volume com um preço acessível.
Utilizando a mesma receita, a editora publicou outros dois volumes reunindo obra completa: "Poética", da poeta carioca Ana Cristina César, e "Poesia Total", do poeta baiano Waly Salomão. Leminski, Ana Cristina e Waly representam uma mesma geração. Representam as novas vertentes da poesia brasileira das décadas de 1970 e 1980, quando o formalismo perde espaço para experimentações e expressões pessoais.
Agora a Companhia das Letras coloca em prática um novo projeto, a publicação dos primeiros livros de Leminski, Ana Cristina César e Waly Salomão: "Caprichos e Relaxos", "A Teus Pés e "Me Segura Queu Vou Dar um Troço".
Os títulos chegam às livrarias físicas e virtuais nesta sexta-feira. São obras carregadas de significados dentro da produção de cada um dos três poetas e abriram as portas da leitura para milhares de jovem. Também são as obras mais conhecidas, lidas e cultuadas de cada poeta.
"Caprichos e Relaxos" foi publicado originalmente em 1983 pela editora Brasiliense. Uma segunda edição apareceu pelo Círculo do Livro em 1986. Foi o livro que tornou Leminski conhecido fora dos muros de Curitiba. Trazia uma nova abordagem da existência colocando a poesia próxima da vida. Uma escrita de "saques, piques, toques e baques". Com uma capacidade direta de comunicação com o leitor, virou objeto de culto e de cópia.
"A Teus Pés" também foi publicado originalmente pela Brasiliense, em 1982. Uma segunda edição saiu em 1998, lançado pela editora Ática em parceria com o Instituto Moreira Sales. Foi o primeiro e único livro que Ana Cristina César (1952 1983) publicou em vida. Misturando poesia e prosa, fazia da experiência autobiográfica matéria-prima para ler o mundo e os sentimentos.
"Me Segura Queu Vou Dar um Troço", de Waly Salomão (1943 2003) teve sua primeira edição lançada em 1972 pela José Alvaro Editor. Uma segunda edição apareceu em 2003 pela editora Aeroplano em parceria com a Biblioteca Nacional. O livro é considerado um marco dentro da contracultura brasileira.
Após ter atuado no Tropicalismo ao lado de Torquato Neto, Waly foi preso pela polícia por fumar um baseado nas ruas da cidade de São Paulo em 1970. Obrigado pelos militares a cumprir pena no Carandiru, utilizou o tempo de presidiário para escrever "Me Segura Queu Vou Dar um Troço". Misturando prosa e poesia, os escritos são totalmente fragmentários e anárquicos. Formado por flashes, trafegam entre a realidade e o delírio em ode à liberdade.
Os três livros são emblemáticos dentro da obra de Leminski, de Ana Cristina e de Waly. Também podem ser considerados clássicos dentro da poesia brasileira contemporânea (principalmente "Caprichos e Relaxos" e "A Teus Pés"). Pequenas pedras que, atirada na face do lago, provocaram propagação de círculos que reverberam até os dias atuais.
Serviço:
"Caprichos e Relaxos"
Autor Paulo Leminski
Editora Companhia das Letras
Páginas 168
Quanto R$ 19,90
"A Teus Pés"
Autor Ana Cristina César
Editora Companhia das Letras
Páginas 144
Quanto R$ 19,90
"Me Segura Queu Vou Dar um Troço"
Autor Waly Salomão
Editora Companhia das Letras
Páginas 128
Quanto R$ 19,90
o barro toma a forma que você quiser você nem sabe estar fazendo apenas o que o barro quer (Poemas que integram "Caprichos e Relaxos", de Paulo Leminski)
QUE DESLIZAOnde seus olhos estão as lupas desistem. O túnel corre, interminável pouso negro sem quebra de estações. Os passageiros nada adivinham. Deixam correr Não ficam negros Deslizam na borracha caminho discreto pelo cansaço que apenas se recosta contra a transparente escuridão.
CARTILHA DE CURAAs mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios. (Poemas que integram "A Teus Pés", de Ana Cristina César)
JUÍZO FINALLoucura é criar altas medidas pra si no jogo na farsa na leviandade e depois levar a vida pra esta eternidade. E internamente não se poderia dizer disto: É loucura porque seria um comentário e o deus encarnado não se permite isto. Lavro e dou fé.
OCEANOHá muito sabemos que estes mistérios tomam grande liberdade com os tempos verbais e podem perfeitamente usar o passado apesar de se referirem ao futuro. Na cadeia tudo é proibido e tudo que é proibido tem. Criação = encaixar tudo e não se decidir por coisa alguma. E contudo não estou tão velho nem tão magnânimo que consiga aniquilar o eu. A vida abençoada em circunstâncias malditas. O cara estuprado por seis. O zinco. A cela forte que se enche dágua. Os que dormem como pedra mal entram no xadrez. Os bicheiros escondendo comidas cigarros. O filho do bicheiro que se entregou pra livrar o pai e estava morrendo de dor de garganta. O assaltante baleado que teve acessos violentos de dor. A descida ao inferno do poeta. Estou ouvindo Roberto Carlos, Ray Charles Georgia, Gil e Caet Charles anjo 45. O carioca legal que emprestou o carro pro amigo, preso na boca. O detento pequeno-burguês que manda cartas pra noiva como se estivesse acidentado num hospital da Argentina. A limpeza e os ideais do xadrez 506. O débil mental que perdeu calça prum passista de Escola de Samba. Os bunda mole. O que dedurou quem roubou sua camisa. Os bunda mole fazendo faxina trazendo água tomando porrada. O tarado da menina de 9 anos esbofeteado pelos tiras e pelos marginais e torturado na delegacia. O traficante preso porque limpava o revólver que disparou e o caguete do andar de cima chamou a polícia. Os contadores de piadas. Ideia de gravar piadas e transcrevê-las na língua viva coloquial. O menino babaca de óculos meio viado baleado roubando pneu de carro esbofeteado jogado de um lado pra outro do xadrez por não soltar o rabo. O dono da tipografia: industrial. O assaltante que usou desodorante como arma unir com nota de Notícias Populares de que bandidos com máscaras de carnaval assaltaram um bar. Alguns deles têm até seis nomes falsos. (Poemas que integram "Me Segura Queu Vou Dar um Troço", de Waly Salomão)


