LEITURA - Trágica beleza de um povo
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de dezembro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Alguns livros possuem o dom da revelação. Mas, ao mesmo tempo que encantam, abrem uma incômoda trilha em direção à verdade. E a revelação nem sempre surge iluminada de sol. Ela pode aparecer soturna, como se empurrasse a ingenuidade ao abismo.
''Faces da Floresta'', do fotógrafo paranaense Valdir Cruz, é um livro desses. Lançado pela Editora Cosac Naify, traz em suas páginas a luminosidade da revelação e o abismo do incômodo caminhando de mãos dadas. Formado por imagens em preto-e-branco dos índios Yanomami em seu ambiente natural, revela tanto a beleza como a tragédia de um povo.
Entre 1995 e 1997, Valdir Cruz participou de várias expedições pelas aldeias de yanomami localizadas na região de fronteira entre Brasil e Venezula. Algumas delas na companhia do escritor norte-americano Patrick Tierney, autor de ''Trevas no Eldorado'' (Editora Ediouro, 2002) polêmico livro sobre os sofrimentos dos yanomami causados por antropólogos e exploradores. Outras, a maioria delas, na companhia da enfermeira Claúdia Kastinger e o microscopista Marinho de Sousa.
Ao participar de expedições com objetivos médicos, o fotógrafo teve acesso ao cotidiano dos índios e permissão de registrá-los na intimidade das tarefas diárias. As imagens, com apurada estética fotográfica, trafegam entre retratos e registros de práticas culturais. O resultado é uma espécie de beleza que os habitantes das cidades não têm acesso.
Mas o que difere ''Faces da Floresta'' de outros livros com imagens indígenas é não ficar restrito às belezas. A tragédia que aflige os yanomami, provocada pelo avanço de garimpeiros e caçadores ilegais, bem como das expedições de conversão religiosa, é exposta de maneira angustiante. Tudo isso é revelado com imagens das vítimas, a maioria abatida por doenças levadas pelos brancos, e, em minoria, doenças oriundas das próprias tribos.
As fotos mais perturbadoras do livro são justamente aquelas que revelam o embate da cultura Yanomami e a cultura Ocidental. Uma delas, por exemplo, trata-se da imagem de uma criança que nasceu hidrocefálica, sem nenhuma condição de sobrevivência. Na tradição indígena, a criança deveria ser morta logo após o nascimento, mas por interferência de freiras católicas, foi poupada e levada para uma base hospitalar.
O gesto, pautado pelo princípio de que a vida é sofrimento, apenas serviu para prolongar a dor da criança. A foto de Valdir Cruz é indescritível. Ninguém passa imune a ela. Além do claro desrespeito cultural, revela a prepotência religiosa em promover e enaltecer o sofrimento em nome de Deus. Nos fragmentos de seu diário, reproduzidos no livro, o fotógrafo anotou: ''Ela sofre, e mais cedo ou mais tarde vai morrer. Tirar estas fotografias foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Parecia que eu sentia as emoções dela e comecei a achar que eu fazia parte da sociedade que infligia aquele sofrimento nela''.
''Faces da Floresta'' deixa claro aquilo que fica cada vez mais evidente. A última população em estado puro do planeta está caminhando para o fim. O mundo não tem mais lugar para uma existência particular, simples e auto-suficiente.
Serviço:
- Faces da Floresta - Os Yanomami, de Valdir Cruz. Editora Cosac Naify, prefácio de Marina Silva, ensaio de Kenneth Good, posfácio de Vicki Goldberg, 144 páginas, capa dura, R$ 79,00.


