Yasunari Kawabata é um dos nomes mais populares da literatura japonesa do século 20. Ao receber o Nobel de Literatura de 1968 viu sua existência ser abalada por um furacão. Passou a ser atormentado pela fama e os milhares de compromissos que é capaz de gerar. Debilitado fisicamente e deprimido, em 1972 resolveu colocar um ponto final em tudo através do suicídio.
Nascido em 1899 na cidade de Osaka, Kawabata é considerado um dos responsáveis em retratar através da literatura a ocidentalização dos valores culturais do Japão após a Segunda Guerra. Uma das características de sua obra está em focalizar o processo de degradação das milenares artes tradicionais no período de reconstrução do país devastado pela guerra.
Dois romances de Kawabata que acabam de ser lançados pela Editora Estação Liberdade reforçam essa característica. ''Mil Tsurus'' e ''Kyoto'' possuem como pano de fundo, respectivamente, a arte da cerimônia do chá e a tradição dos quimonos. Ambos fazendo uso de elementos folhetinescos.
''Mil Tsurus'' surpreende pela presença de elementos dignos da obra de Nelson Rodrigues (1912 - 1980). Nas primeiras páginas, Kikuji, o protagonista, presencia uma cena que atormentará suas lembranças. Ainda garoto, vê o seio desnudo da amante do pai. O detalhe que marca a imagem é a presença de uma mancha escura num os seios. Uma mancha de onde brotam pêlos negros. Quando adulto, após a morte do pai, Kikuji terá sua iniciação sexual com uma viúva, ex-amante do pai. Na sequência, se apaixonará pela filha da viúva.
O enredo é todo permeado pela tradicional arte da cerimônia do chá. Kikuji pertence a uma geração que não dá muita atenção às tradições mas, ao mesmo tempo, é envolvido pela cerimônia através das mulheres que o cercam. O processo ritualístico da cerimônia passeia por toda a história, funcionando como personagem carregado de significados.
''Kyoto'' apresenta um enredo habitual do gênero folhetinesca. Narra a história de Chieko, bela e rica jovem filha adotiva de um comerciante de quimonos que procura suas origens desconhecidas. Por acaso, descobre que possui uma obscura irmã gêmea, uma camponesa pobre, da qual foi separada quando bebê.
O pai de Chieko enfrenta um drama em ascensão no país: a constante queda na procura pelas tradicionais quimonos femininos. As vestimentas ocidentais passam a ocupar maior espaço, e a produção do artesanato de tecidos e estamparia dos quimonos começa a entrar em colapso.
Se em ''Mil Tsurus'' a cerimônia do chá ocupa um papel determinante, em ''Kyoto'' esse papel é ocupado pela cidade de Kyoto com sua atmosfera milenar. Descrições sobre o lugar, e suas alterações ao longo das quatro estações, preenchem grande parte do romance. Vale assinalar que as descrições utilizadas por Kawabata, em ambos livros, não possuem o simples objetivo de compor um retrato, mas de traçar uma registro sensorial sobre o impasse entre o passado e o presente.
Além de ''Kyoto'' e ''Mil Tsurus'', Yasunari Kawabata possui outras duas obras publicadas no Brasil traduzidas diretamente do idioma japonês: ''A Casa das Belas Adormecidas'' e ''O País das Neves''. A Editora Estação Liberdade promete lançar em 2007 mais dois títulos do escritor, ''Contos da Palma da Mão'' e ''A Dançarina de Izu''.

Serviço:
- ''Mil Tsurus'', de Yasunari Kawabata, Editora Estação Liberdade, tradução de Drik Sada, 176 páginas, R$ 29,80.
- ''Kyoto'', de Yasunari Kawabata, Editora Estação Liberdade, tradução de Meiko Shimon, 256 páginas, R$ 37,50.

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