LEITURA - Tormentos de um cérebro em chamas
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segunda-feira, 17 de março de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Inclassificável. Sua obra não se encaixa em nenhuma gaveta específica, em nenhuma etiqueta determinada. Pode ser isso, aquilo, tudo e algo mais. A única definição exata é a de uma literatura pautada pela radicalidade. Um verdadeiro mergulho na escuridão do abismo.
Conde de Lautréamont (1846 1870) é um caso singular dentro da história da literatura universal. Ao morrer, aos 24 anos de idade, deixou apenas duas obras, mas suficientes para provocar explosões na cabeça dos leitores. Sua escrita era fruto de um cérebro em chamas. Em vida foi um invisível desconhecido. Começou a ganhar notoriedade só décadas após sua morte, quando seus textos foram finalmente descobertos.
Pouco se sabe sobre sua existência. Sua biografia é um imenso vazio nebuloso. Seu verdadeiro nome era Isadore Lucien Ducasse. Nasceu no Uruguai em 1846, filho de um funcionário do consulado francês em Montevidéu. Foi enviado para estudar na França aos 11 anos de idade e nunca retornou à América do Sul. Apesar de nascido no Uruguai, sempre foi considerado um escritor francês.
A editora Iluminuras está colocando nas livrarias uma nova edição de suas obras completas com a bem cuidada tradução de Claudio Willer. O volume reúne os únicos dois livros publicados por Lautréamont com dinheiro do próprio bolso, "Os Cantos de Maldoror" e "Poesias I e II", além da parca correspondência deixada pelo autor.
Segundo a lenda, Lautrémont escrevia madrugada adentro martelando um piano caótico, falando sozinho aos berros e devorando doses de absinto. Graças ao vazio de sua biografia, uma série de lendas foram coladas em sua imagem ao longo dos tempos. Sua escrita revela um homem atormentado pelo lado escuro da existência, pelos abismos da perversão, pelos delírios bestiais da loucura. E tudo por meio do uso da clareza racional dentro de uma dolorida tormenta.
Das duas obras que deixou, "Os Cantos de Maldoror" merece destaque. É um clássico da literatura. Uma experiência de leitura em que é impossível o leitor sair impune. Um século e meio após ter saído criada, a voz de Maldoror permanece imbatível e insuperável pela mais radicais vertentes da literatura contemporânea.
"Os Cantos de Maldoror", publicado originalmente em 1886, não narra uma história propriamente dita. É uma viagem por territórios em chamas, circulando pelos limites da capacidade humana de delírio e perversão. Maldoror cospe fogo pelas ventas para mostrar aquilo que o ser humano possui em seus escuros corredores mentais. Derruba muros, quebra vitrines e levanta saias com a fúria de marteladas.
Considerado o precursor do surrealismo, Lautréamont não fez distinção entre o certo e o errado, entre o real e o imaginado, entre frente e verso, entre o eu e o outro, entre o reto e seu oposto. Uma das características de sua literatura está na capacidade dos pensamentos se transformarem insistentemente em seu oposto. O que era branco se torna negro, o que era escuro se torna alvo, sem amarras, sem pudores.
Serviço:
"Os Cantos de Maldoror, Poesia, Cartas"
Autor Lautréamont
Editora Iluminuras
Tradução e prefácio Claudio Willer
Páginas 384
Quanto R$ 56
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