LEITURA - Tomando chá com o absurdo
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de setembro de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Existem escritores que são citados incessantemente como leitura obrigatória. Referências de suas obras aparecem em todos os mais variados cantos, esquinas, ensaios, escolas. Pertencem ao lendário grupo de autores extremamente citado e raramente lido.
O polonês Witold Gombrowicz pertence a esse grupo de escritores que são muito citados e pouco lidos. Embora seu nome seja figura recorrente na literatura do século 20, apenas agora sua obra recebe uma edição brasileira. Lançado pela Editora Companhia das Letras, ''Ferdydurke'' é geralmente apontado, com algumas doses de exagero, como o primeiro romance ''pós-moderno'' criado dentro da própria modernidade.
O próprio título, ''Ferdydurke'', não possui nenhum sentido. Não significa nada. Também não possui nenhuma relação com o conteúdo, ou mesmo com o enredo, do livro. Trata-se apenas de uma brincadeira de inspiração dadaísta utilizada por Gombrowicz para satisfazer a necessidade clássica dos romances terem um nome.
Witold Gombrowicz nasceu em 1904 na Polônia. Logo após publicar seu segundo livro, ''Ferdydurke'', ganhou de presente um cruzeiro marítimo em direção à Argentina. Tratava-se de uma viagem promocional, que marcava as comemorações da primeira viagem da embarcação recém-inaugurada.
A Segunda Guerra Mundial explodiu na mesma semana em que Gombrowicz colocou os pés em Buenos Aires. Impedido de voltar ao seu país, fixou residência na Argentina onde permaneceu por 24 anos vivendo próximo da miséria. Em solo argentino escreveu grande parte de seus livros até optar por morar na França, onde morreu em 1969.
''Ferdydurke'' foi publicado originalmente em 1937. Segundo a lenda, Gombrowicz proibiu que os amigos tecessem qualquer espécie de comentário sobre a obra. Estabeleceu o método que consistia basicamente de puxões de orelhas. Aqueles que tivessem gostado do romance deveriam puxar sua orelha direita. Aqueles que haviam odiado deveriam puxar sua orelha esquerda. Nada de palavras.
''Ferdydurke'' é um romance onde a idéia de maturidade é ironizada até o osso. A lógica de que a maturidade, galgada ao longo dos anos, corresponde à etapa mais esperada da vida de um homem é sumariamente pisoteada no chão. Apresenta o argumento de que a imaturidade possui valores muito mais substanciosos que seu inverso. E que o enaltecimento da maturidade é um mecanismo construído pelos velhos para se colocarem acima do paraíso habitado pela juventude.
O livro narra a história de Józio, um sujeito que, caminhando em direção aos 40 anos de idade, é obrigado a viver como um adolescente. A partir dessa situação com os dois pé do absurdo, Grombrowcz cria uma narrativa em direção ao impalpável, ao fantástico, ao absurdo. Situações bizarras e carregadas de manifestações excêntricas percorrem os conceitos básicos que fazem do homem um elemento da humanidade.
''Ferdydurke'' é a delirante viagem de um personagem que não conseguiu desenvolver a maturidade. Assim, a verdade, uma das virtudes da maturidade, é colocada de escanteio. Podendo criar sua história da maneira que bem entender, sem os limites da lógica do realismo, Józio avança em direção ao delírio pautado pela ironia. Grombrowcz coloca nas mãos do leitor apenas duas opções: ser companheiro de viagem do personagem ou deixar o livro na estante.
Quem tem o hábito de vasculhar sebos sabe que ''Ferdyduker'' não é o primeiro livro de Gombrowicz publicado no Brasil como a imprensa vem divulgando. Em 1968 a extinta Editora Expressão Artística colocou nas livrarias brasileiras ''Bakakai'', volume que reunia 12 contos do escritor polonês.
As histórias presentes em ''Bakakai'' são carregadas de situações inusitadas onde elementos fantásticos assumem uma dimensão real. O absurdo é tratado como uma das possíveis faces da realidade moderna. As situações criadas não partem da idéia de inventar contextos, mas sim redimensionar os conceitos já existentes. Em outras palavras, algo como tomar o chá das cinco com o absurdo.
Serviço:
- Livro ''Ferdydurke'', de Wiltold Gombrowicz. Editora Companhia das Letras, tradução do polonês de Tomasz Barcinski, prefácio de Susan Sontag, 352 páginas, R$ 49,00.
Fiquei parado em silêncio diante daquele cravo. Não podia deixar de admirar a colegial! Que habilidade! Ao tirar a flor de dentro do sapato, ela conseguiu matar dois coelhos com uma só cajadada: temperava o amor com o esporte e aguçava o esporte com amor! Ela atirara a flor num tênis suado, em vez de num sapato comum, porque sabia que a única coisa que não faz mal às flores é o suor do atleta. Ao associar o suor do atleta à flor, despertava uma simpatia para com todo o seu suor, associando-o a algo perfumado e esportivo. Que lance de gênio! Enquanto jovens ultrapassadas, ingênuas e óbvias cultivavam azaléias em vasos, ela atira uma flor no sapato, mas não num sapato qualquer, e sim num tênis! E a danadinha com certeza, fez isso inconscientemente, por puro acaso!
(Fragmento do livro Ferdydurke, de Witold Grombrowicz)


