Todas as famílias um são um pouco parecidas. Seja nas tragédias, nas festas ou nas baixarias. São mais parecidas ainda na pobreza. As moedas contadas para o picolé das crianças, o pão sem manteiga no café da manhã, a cartinha que nunca chegou nas mãos do Papai Noel.
Alguns textos do escritor John Fante (1909 – 1983) entram pela porta de trás da casa das famílias e revelam o que há em cada um dos cômodos. Sala, quarto e cozinha. Varanda, quintal e banheiro. O principal desses textos é "Espere a Primavera, Bandini", que acaba de ser relançado pela editora José Olympio.
Trata-se do primeiro romance escrito por John Fante (1909 – 1983). O escritor norte-americano de origem italiana chegou a afirmar que nunca conseguiu ler o livro após sua primeira publicação em 1938. E que nunca se arriscaria a reler durante o resto de sua vida. A obra tinha uma importância particular para Fante. Dizia que todas as pessoas em sua vida de escritor e todos os personagens que criou já estavam nesse primeiro livro. Mas, acima de tudo, a história narrada lembrava em demasia sua própria família: "Não posso suportar a ideia de me deixar expor por minha própria obra".
"Espere a Primavera, Bandini" retrata a infância de Arturo Bandini, personagem protagonista de quase todos os romances de John Fante. Mas o foco narrativo não está apenas em Arturo, mas em sua família. O pai, a mãe e os dois irmãos. Uma família de imigrantes italianos que fogem da miséria na Europa para apostar na prosperidade da América.
O pai, o velho Svevo Bandini, é um pedreiro turrão e casca dura que gosta de beber e jogar. A mãe, Maria, é uma resignada dona de casa que passa os dias rezando. Os três filhos não estão nem aí com as mazelas da família, tudo que querem são estripulias e liberdade. Arturo, o filho mais velho de 14 anos, vive sua primeira paixão por uma menina que nem sabe que ele existe.
Há um jogo entre pai e filho que permeia toda a narrativa. Svevo e Arturo trafegam entre o sentimento de inferioridade e o sentimento de orgulho. A inferioridade vem da pobreza em que vivem e o orgulho vem da tentativa de serem pessoas honestas e corretas. Esses dois sentimentos trafegam entre o cômico e o trágico em poucos minutos.
Svevo não consegue suprir as necessidades da família com o salário de seu trabalho de pedreiro. Ama sua profissão, mas não consegue pagar o leite das crianças durante o inverno, período em que a oferta de trabalho é escassa devido às intempéries. Seu grande sonho é que a primavera chegue logo para que as oportunidades de trabalho voltem a surgir e sua agonia chegue ao fim.
Arturo sonha em ser o bom, um famoso jogador de futebol com muita grana e dezenas de lindas mulheres lambendo seus pés. Para se dar bem na vida, comete os mais básicos pecados e amarga um profundo sentimento de culpa. Sua malandragem está em caminhar em direção ao pecado para logo em seguida ir atrás da absolvição de Deus. Através da remissão dos pecados, ele pode voltar aos pecados com total liberdade.
John Fante desenha uma típica família de imigrantes italianos procurando ganhar a vida em um novo país. Os pais desejam continuar italianos em solo americano. Os filhos, por outro lado, desejam apagar as origens se tornarem genuinamente americanos.
A narrativa de "Espere a Primavera, Bandini" é recheada por uma das principais características da literatura de John Fante: o jogo quase simultâneo entre o trágico e o cômico. A sogra de Svevo, avó de Arturo, por exemplo, é descrita com as seguintes palavras: "Donna Toscana agora era uma mulher imensa, sempre vestida de preto desde a morte do marido. Debaixo da seda negra havia anáguas, quatro delas, todas em cores vivas. Seus tornozelos intumescidos pareciam papos. Seus pequeninos sapatos pareciam prestes a estourar sob a pressão dos 110 quilos. Não dois, mas uma dúzia de seios pareciam esmagados em seu peito. Era constituída como uma pirâmide, sem quadris. Havia tanta carne em seus braços que eles pendiam não para baixo, mas num ângulo, os dedos inchados bamboleando como salsichas. Não tinha praticamente nenhum pescoço. Quando virava a cabeça, a carne flácida mexia-se com melancolia de cera derretida. Um escalpo rosado aparecia debaixo dos cabelos brancos ralos. Seu nariz era fino e delicado, mas os olhos eram como uvas pisoteadas. Sempre que falava, os dentes postiços tagarelavam distraidamente numa linguagem toda sua."
Em "Espere a Primavera, Bandini", John Fante elege a família como o começo do mundo. Também como o começo de todas as ironias. Todas as famílias um são um pouco parecidas. Nas festas de final de ano, nas discussões acaloradas ou nas felicidades ludibriadas.

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Todas as famílias no espelho


Serviço:
"Espere a Primavera, Bandini"
Autor – John Fante
Editora – José Olympio
Tradução – Roberto Muggiati
Páginas – 208
Quanto – R$ 35



Fragmento:
Sempre quisera que sua mão fosse atraente, que fosse bonita. Há 16 anos sua mãe fora bonita, pois tinha visto uma foto dela. Oh, aquela foto! Muitas vezes, vindo da escola e encontrando a mãe cansada e preocupada, e nada bonita, ele a tirava do baú – uma foto de uma garota de olhos grandes num amplo chapéu, sorrindo com tantos dentes pequeninos, uma beleza de garota de pé debaixo da macieira no quintal da vovó Toscana. Oh, Mamma, por que você mudou?
Subitamente quis olhar de novo aquela foto. Debaixo das camadas de roupa de cama e cortinas que a mãe guardava para "quando a gente tiver uma casa melhor", debaixo das fitas e das roupas de bebê usadas antigamente por ele e por seus irmãos, encontrou a fotografia. Ah, rapaz! Ergueu-a e olhou para a maravilha daquele rosto adorável: aqui estava a mãe com quem sonhara, essa garota, com não mais do que 20 anos, cujos olhos sabia que se assemelhavam com os seus. Não aquela mulher cansada na outra parte da casa, aquela com o rosto magro e castigado, as longas mãos ossudas. Tê-la conhecido então, ter lembrado tudo desde o começo, ter sentido o balanço daquele belo ventre, ter vivido lembrando-se desde o início e ainda assim ele não se lembrava de nada daquela época, e sempre ela fora como era agora, cansada, com aquela melancolia sofrida, os grandes olhos, os de outra pessoa, a boca mais suave como se de muito chorar.
(De "Espere a Primavera, Bandini", de John Fante)


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