Tolice faz parte da vida. Do mesmo modo como café frio ou cerveja quente. A diferença é que todo ser humano experimenta a tolice, mas nem todos possuem a oportunidade de provar um café frio ou uma cerveja quente. Tolice é aquilo que faz com que os homens acendam suas íntimas lanternas num túnel escuro. Ela também faz com que pessoas, por motivos diversos, alimentem com pilhas velhas suas lanternas. Ela pode fazer qualquer coisa, seguir em qualquer direção.
O escritor norte-americano Charles Bukowski (1920 - 1994) direcionou toda sua obra no sentido de combater a tolice, que ele chamava de pura hipocrisia humana. Mais conhecido no Brasil por sua produção literária em prosa são 11 títulos publicados entre contos, novelas e romances , Bukowski deixou uma produção poética enorme.
Inexplicavelmente, até pouco tempo atrás, não havia nenhum livro de poesia de sua autoria publicado em português. O primeiro apareceu há um ano, ''Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski'', lançado pela Editora Bertrand Brasil com tradução de Jorge Wanderley, falecido antes de ver o livro publicado. O segundo, ''Hino da Tormenta'', surge agora através da Espectro Editora, uma editora novata de Florianópolis, que promete publicar ao longo de 2004 mais três volumes da poesia produzida por Bukowski.
Desde seus primeiros textos, deixou claro que não queria fazer parte de tolices da vida. Especialmente a tolice da cultura norte-americana com seu excesso de sucesso e bem-estar. Para ironizar a tolice, criou uma escrita pautada por uma ironia humorada e por um heróico ''foda-se'' a tudo a todos.
Arrastando uma legião de fãs, Bukowski criou uma literatura pautada pela simplicidade e pela oralidade cotidiana. Em suas narrativas não enrola o leitor, deixa tudo claro, descarado. Pode ser considerado um escritor popular, não daqueles que produzem novelas para televisão, mas histórias para os leitores que saem de casa porque não suportam as novelas da televisão.
Sua poesia é uma extensão direta de sua prosa e vice-versa. Grande parte de seus versos são diretos, o que pode ser confundido, inadvertidamente, com facilidade poética. Narram pequenas histórias onde as personagens quase sempre o próprio narrador vivem seus dramas com um pé nas dores da existência e outro na coragem de permanecer vivos da maneira que bem entenderem. Como qualquer bêbado experiente, sabe que toda narrativa tende a ser uma conversa, uma história a ser contada com toda a fluidez que a oralidade oferece.
Os versos reunidos em ''Hino da Tormenta'' integram o livro ''Open All Night: New Poems'', último título do escritor e publicado postumamente em 2000. A temática gira do peculiar universo bukowskiano: bares da periferia, bêbados escorregando pelos balcões, fracassados com dignidade de nobres, jogadores apostando até a vida, putas que representam mulheres ideais, desajustados de todos os tipos e o peculiar desprezo à burguesia norte-americana com toda sua hipocrisia asséptica.
Como todo e qualquer livro de versos, ''Hino da Tormenta'' possui tanto belos poemas como textos que o autor não teve a iniciativa de jogar em sua lixeira particular. A literatura de Bukowski não está pautada pelo rigor. Numa época em que o rigor tornou-se uma lei que todos devem seguir, ele simplesmente faz o que bem entende com extrema personalidade. Quebrando a ''ditadura do rigor'' deixa a poesia mais próximado leitor, tenha ele o mais variado perfil.
Entre as ''bobagens sujas'' de seus poemas, Bukowski tem a capacidade de inserir conteúdo requintado com relação à condição humana. O que ele se propõe a dizer, não aparece diretamente com a fluidez de sua narrativa, mas de maneira discreta como pequenos goles. A arte de transformar sujeira em beleza.


Serviço:
- ''Hino da Tormenta'' de Charles Bukowski, Spectro Editora (www.spectroeditora.com.br), tradução de Fabio Soares, Gerciana Espíndola e Sigval Scheitel, 96 páginas, R$ 18,00.

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