John Fante costumava dizer que as verdadeiras perguntas da vida deveriam ser dirigidas às coisas que parecem desprovidas de sentido. A pergunta deveria ser feita aos solitários arbustos do deserto, às bicicletas enferrujadas esquecidas nos quintais, aos sofás abandonados nos fundos de vales, aos cachorros que bebem água da chuva.
A indagação deveria ser realizada ao pó da estrada, ao coração que espera por banho e sabão, aos óculos quebrados dos cegos, à azia dos acumuladores de rancor, aos galhos quebrados das árvores, aos órfãos de destino, à poeira dos livros esquecidos e, principalmente, àqueles que vivem tirando uma lasquinha da morte.
Para o escritor norte-americano John Fante (1909 – 1983), a resposta não estava apenas nos componentes da pergunta, também estava na maneira cômica que as respostas vestiam fantasias frente aos dramas mais cabeludos do cotidiano. Nas baixarias de família. Nos exageros da paixão. Nas feridas do trabalho.
Esses elementos, características básicas da literatura de John Fante, estão presentes em "A Grande Fome", antologia de contos inéditos lançada pela editora José Olympio. Organizado por Stephen Cooper, biógrafo do escritor, o volume é fruto de pesquisa nos arquivos sob a guarda da viúva de Fante, falecido em 1983.
"A Grande Fome" reúne 20 contos escritos entre 1932 e 1959. Apenas dois deles foram publicados em revistas literárias, os outros são totalmente inéditos. Grande parte dos textos dialoga com romances de John Fante - as personagens dos contos também são personagens que aparecem nos romances. O lendário Arturo Bandini e sua pitoresca família de imigrantes italianos estão entre eles.
Um dos elementos das histórias está na capacidade do narrador (seja criança ou adulto) ver o mundo de maneira ingênua, em encarar com ingenuidade os sentimentos mais necessários ao ser humano. Amor e ódio, fúria e piedade, tudo caminha num único bolo sem recheio, apenas com uma cobertura de açúcar afetivo. Ao lado das misérias da imigração italiana nos Estados Unidos no início do século 20, aparece também as misérias dos imigrantes filipinos e japoneses em solo americano no período da Segunda Guerra Mundial.
"Bote na Conta", conto que segue nesse caminho, traz as adversidades de uma dona de casa que precisa alimentar seus nove filhos através de uma conta fiada na mercearia da esquina. Já que o marido pedreiro não consegue pagar os valores mensalmente, é ela que precisa dar as caras e lidar com o dono da mercearia. A vergonha que sente em pedir fiado sem quitar a conta anterior, cada vez que pisa na loja, se mistura com a coragem materna de nutrir os filhos. O tormento interior da personagem assume proporções comoventes.
John Fante, nascido em 1909, é hoje um escritor publicado nos quatro cantos do mundo, com uma legião de admiradores. Nem sempre foi assim. Quando morreu, em 1983, era um completo desconhecido. Ganhou a vida como roteirista de filmes menores de Hollywood durante as décadas de 1940 e 1950. Começou a ser publicado no Brasil na década de 1980 pelas mãos do poeta paranaense Paulo Leminski, que traduziu "Pergunte ao Pó" lançado pela editora Brasiliense em 1984.
Os fãs de John Fante podem ficar com os olhos marejados diante de "Prólogo para Pergunte ao Pó", texto que integra "A Grande Fome". Escrito por Fante como abertura do romance "Pergunte ao Pó", considerado sua obra prima publicado originalmente 1939, foi suprimido das edições. Os editores achavam que o texto entregava o final do romance logo nas primeiras páginas do livro. Esse prólogo foi descoberto nos arquivos do escritor e publicado postumamente em 1990.
A impressão que o texto provoca é de que o narrador (o personagem Arturo Bandini) se joga num precipício em nome do amor que sente por uma mulher (a mexicana Camilla Lopez). A narrativa acompanha a queda livre em frases longas e intensas. Algo diferente da escrita curta, clara de direta da literatura de John Fante.
"Prólogo para Pergunte ao Pó" pode ser considerado um delírio poético de uma tentativa de narrar uma história escrita com o coração apertado pelas condições da vida. Condições que não podem ser controladas, muito menos domesticadas. Uma história de amor atropelada pelos aspectos mais patéticos da vida. Nada mais do que velhos sofás abandonados em fundos de vales à espera de almofadas e cobertores.

Serviço:
"A Grande Fome"
Autor – John Fante
Editora – José Olympio
Organização – Stephen Cooper
Tradução – Roberto Muggiati
Páginas – 288
Quanto – R$ 35

Nós, garotos, éramos fascinados por criminosos do cinema, mas Fred Bestoli não era do tipo fascinante. Não matava nem roubava. Não andava com armas de fogo nem era caçado pela polícia. Ele sempre vinha em nossa casa pelo caminho do beco. De trás do galpão de carvão, ele assoviava para papai. Se estávamos ceando, papai ia lá fora a mandava Fred esperar. Isso criava um mal-estar, vovó resmungava e batia as coisas, xingava a América, dizendo que devia ter afogado papai no dia em que ele nasceu. Mamãe parava de comer, seu corpo congelando de ressentimento, seus olhos fixos em papai, que começava bater coisas também, dizendo que desejava nunca ter se casado, nunca ter vindo para a América, nunca ter nascido de uma chacal como sua mãe ou casado com uma pamonha como sua mulher. Se algum de nós, crianças, sequer respirasse fundo durante esse ataque de fúria, papai pegava uma faca e ameaçava cortar nossa garganta. Embora o pavoroso aviso fosse anunciado aos gritos três ou quatro vezes por semana ao longo de nossa meninice, o mais próximo que chegou de concretizar a ameaça foi na noite em que jogou uma almôndega em meu irmão Dino. (Fragmento do conto "O Criminoso", que integra "A Grande Fome" de John Fante)
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