Em seus últimos anos de vida, o escritor francês Gustave Flaubert (1821 - 1880) viveu uma crise monumental. Assistiu à morte dos melhores amigos e dos familiares mais próximos. Perdeu praticamente todos os bens e economias pagando dívidas mal gerenciadas por terceiros. Não conseguia concluir o romance ''Bouvard e Pécuchet'', trabalho em que havia dedicado quase dez anos de estudos e pesquisas.
Com a cabeça estourando e a saúde debilitada, Flaubert isolou-se. Sua intenção era mandar o mundo e a literatura para muito longe. Mas não conseguiu. Apesar da crise, começou a escrever, simultaneamente, três contos sob a desculpa de exercitar o depuramento da narrativa. Em suas palavras, nada mais que ''coisinhas que as mães poderão deixar as filhas lerem'', numa clara alusão ao processo judicial que sofreu após a publicação de seu clássico ''Madame Bovary'', acusado de ''ofensa à moral pública e religiosa''.
O livro que reúne os textos, ''Três Contos'', publicado originalmente três anos antes da morte do escritor, é considerado o testamento literário de Gustave Flaubert. ''Bouvard e Pécuchet'', que seria sua obra mais ambiciosa, um irônico tratado sobre a estupidez humana, permaneceu inacabada.
''Três Contos'', que acaba de ser editado pela Cosac & Naify Edições, deixa claro porque Flaubert é um dos grandes nomes da história da literatura francesa. Com condução narrativa impecável e um extremo cuidado com as palavras, apresenta ambíguas questões humanas com a delicadeza de uma brisa, antes e depois de uma tempestade. A descrição assume uma dimensão iluminada na criação de situações e contextos.
Em ''Um Coração Simples'', conto que abre o livro, o autor apresenta a história de Felicite, uma humilde criada que dedica toda sua vida em servir a patroa. Uma personagem que, na época, seria colocada num plano terciário, recebe primazia na narrativa de Flaubert. Trata-se de uma mulher solitária, que enfrenta uma série de perdas ao longo da vida com uma ingenuidade inabalável.
Sua vida particular se resume a um pequeno quarto. Sua devoção à família da patroa é visceral; os limites de sua existência são estreitos, limitantes. Quando consegue ter, como bicho de estimação, um papagaio, dedica à ave uma relação maternal. Quando o animal morre, empreende todo esforço em empalhá-lo e o bicho assume a figura de uma imagem santificada, objeto de devoção e orações.
Em ''A Legenda de São Julião Hospitaleiro'', Flaubert faz um impactante relato da história de um santo parricida. Na juventude, o nobre Julião tinha como hábito a feroz matança de animais. Seu ímpeto grande era capaz de dizimar centenas de bichos em suas caçadas. Cego em suas matanças, recebe a mensagem que seu desatino será matar os próprios pais.
Atormentado, Julião abandona o castelo dos pais e passa a viver como guerreiro errante, capaz de vencer qualquer inimigo. Quando tudo parece bem, uma inesperada situação faz com que assassine, por engano, o pai e a mãe. Cumprida a maldição, torna-se uma asceta em busca de purificação. Tal purificação acontece após uma boa dose de sofrimento, após uma abnegação desconcertante.
''Heroíade'', texto que encerra ''Três Contos'', é a reconstituição de um episódio bíblico, a decapitação de João Batista. Tudo a partir de duas óticas, a do poder político masculino e a do poder de sedução feminino. O impasse espiritual dá lugar a um jogo de poder onde os homens utilizam suas armas específicas e as mulheres suas armas particulares.
Em ''Três Contos'', Gustave Flaubert trabalha com um grau de sutileza desconcertante. O cuidado com que lida com as palavras, frases e abordagens, faz com que o conteúdo navegue numa leveza reveladora. O fato de tratar-se de uma literatura do século 19, torna-se apenas um detalhe.

Serviço:
- Três Contos, de Gustave Flaubert, Cosac & Naify Edições, tradução de Milton Hatoum e Samuel Titan Jr., 146 páginas, capa dura, R$ 39,00.

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