LEITURA - Ternura cortante
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Uma nostalgia pouco comum. Um tipo de nostalgia que não se apega ao passado. Um tipo que se apega ao presente com a consciência de que está perdendo alguma coisa no agora. Uma espécie de nostalgia que sabe que a percepção do agora é algo inesquecível.
Em seu novo livro de contos, ''Espinhos e Alfinetes'', o escritor paulista João Anzanello Carrascoza traz uma galeria de personagens aturdidos por esse tipo de nostalgia. Figuras que, diante da percepção de que a inocência está saindo pela porta e dizendo adeus, procuram absorver o máximo possível do agora. Tanto na tentativa de fertilizar a memória como na tentativa olhar os fatos como ritos de passagem.
Como em seus livros de contos anteriores, João Carrascoza elege como temática central o universo das relações interpessoais. No caso de 'Espinhos e Alfinetes', o foco recai sobre os ritos de passagem da infância. Especificamente sobre os ferimentos experimentados através da perda.
No conto ''Alfinete'', por exemplo, pai e filho experimentam as sensações do primeiro dia sem a presença da mãe. O primeiro dia de rotina após a perda se apresenta como um desafio silencioso diante de um novo ponto de partida. Algo semelhante acontece no conto ''Sol'', onde uma garotinha experimenta a sensação acolhedora da presença dos pais e, num átimo, a sensação contrária, a sensação de completo abandono. Algo como a percepção de que os primeiros tentáculos da dor estivessem se aproximando de sua pele.
Uma das características da literatura de João Carrascoza está em considerar a linguagem como elemento da história narrada. No conto ''Mar'', por exemplo, o autor reproduz na narrativa o ritmo do oceano, o fluxo e refluxo das ondas. Tudo para representar os pensamentos de um pai na praia, na companhia de seu pequeno filho que experimenta todas as sensações e descobertas que o mar pode oferecer às crianças.
''Espinhos e Alfinetes'', lançado pela editora Record, traz onze pequenos contos onde perda e dor são encarados com uma certa ternura. Histórias onde não há necessidade de facas ou punhais para evidenciar os ferimentos. Histórias onde espinhos e alfinetes realizam tal tarefa com maior abrangência e alto grau de sutileza.
Nessa atmosfera, a nostalgia se manifesta pelo presente, simultaneamente aos acontecimentos, colada às percepções mais caras, aquelas que atuam como divisoras de água. Um tipo de nostalgia que não se apega ao passado. Uma nostalgia pouco comum. A nostalgia do exato momento em o homem percebe que a felicidade é um estado pueril.
Serviço
Espinhos e Alfinetes
Autor - João Anzanello Carrascoza
Editora - Record
Quanto - R$ 34,90 (112 págs.)
Este seria o nosso tempo de convivência até o fim da tarde, embora, ao deixá-lo, eu continuaria a ouvir a voz dele dentro de mim, e, diferente dela, ele estaria vazando minhas recordações e tremulando em meu olhar como uma bandeira ao vento.
''Quem vem me buscar?'', ele perguntou, revelando a verdade que o desordenava por dentro.
''Agora serei sempre eu'', respondi.
Estacionei o carro e disse, ''Boa aula!'' Ele me deu um beijo e saltou, a mochila a escorregar-lhe pelo ombro. Passou pelo portão da escola, entre outras crianças, e foi se afastando, lentamente.
Tínhamos tanto a aprender. Era só o nosso primeiro dia.
(Fragmento do conto ''Espinho'' que integra ''Espinhos e Alfinetes'' de João Anzanello Carrascoza)


