LEITURA - Sublimações da normalidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Lydia Davis é uma escritora incomum dentro da tradição da literatura norte-americana. Ao contrário de extensas narrativas e romances quilométricos, construiu uma obra pautada por ficções curtas, algumas quase telegráficas.
Nascida em 1949, Lydia Davis (professora de escrita criativa da Universidade de Albany - Nova York) aparece como a escritora da vez no mercado editorial brasileiro. "Tipos de Perturbação", seu primeiro livro publicado no Brasil, acaba de chegar às livrarias lançado pela editora Companhia das Letras. Sua presença está confirmada para a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2013 que acontece em julho. E para completar, foi agraciada, na semana passada, com o cobiçado prêmio bianual Man Booker International Prize.
A principal característica da literatura de Lydia Davis (ex-esposa do escritor Paul Auster e premiada tradutora de Marcel Proust) é a narrativa curta, que pode conter desde uma centena de frases até cinco ou seis palavras. Para os leitores brasileiros familiarizados os contos extremamente breves do curitibano Dalton Trevisan (ou com os micro-contos da nova geração), não há novidade nenhuma.
A característica que realmente interessa na ficção de Lydia Davis não está na brevidade. Está na linguagem e na temática que faz uso. Ela mistura, por exemplo, gêneros como contos, anedotas, epigramas, ensaios, testemunhos, aforismos, observações e relatos. Seu olhar está sempre debruçado sobre pequenas questões cotidianas que, através da linguagem, tornam-se gigantescas. Não é o fato que interessa, mas a dimensão que ele pode atingir diante da personagem, diante das palavras.
No texto "Coisas Que Descobrimos a Respeito do Bebê", por exemplo, traz as percepções diárias de uma mãe acerca de um recém-nascido e a vã tentativa de estabelecer comunicação com bebê. "Como Devo Chorá-los?" traz as dúvidas de um filho sobre qual verbo utilizar para falar do pai recém falecido, se no presente ou no passado. "Quanto Ela Não Consegue Dirigir" retrata as inquietações de uma mulher que não consegue dirigir o carro e olhar as nuvens do céu simultaneamente. "Distraída" revela uma moça que não consegue alimentar seu gato de estimação e, ao mesmo tempo, pensar sobre o gato. E quando deixa de pensar no bicho, o alimenta sem se lembrar do ato.
Ao lado contos curtos que integram "Tipos de Perturbações", também há algumas narrativas longas que incorporam, ironicamente, o gênero ensaio dentro da ficção. Em "Helen e Vi: Um Estudo Sobre Saúde e Vitalidade", Lydia Davis ergue um tratado sobre possíveis motivos triviais que levaram duas velhinhas completamente diferentes a chegar aos 80 anos de idade. Em "A Sra. D. e Suas Empregadas" faz um vasto levantamento sobre todas as domésticas e diaristas que a personagem teve em sua casa ao longo da vida para chegar a conclusão alguma. Em "Saudades: Um Estudo de Cartas Escritas Por Alunos de Uma Classe do Quarto Ano Primário Desejando Melhoras a Um Colega" há a análise de redações de uma sala de aulas dirigidas a um aluno que precisou se ausentar das aulas vítima de um acidente. Vale assinalar que esses estudos, em forma de contos, chegam a conclusões tão triviais como triviais são os motivos que deram origem a eles. O absurdo da situação é fruto do absurdo que impulsionara o entendimento e vice-versa.
Nos textos de "Tipos de Perturbação" não há sentimentos. Há lógicas específicas. A clareza da razão faz com que a própria razão se apresente como dúvida cotidiana. Os contos de Lydia Davis trabalham com uma caravana trivial de dúvidas mentais e impasses sensoriais capazes de durarem minutos, dias ou anos sem resolução. Tudo sob névoa de uma comicidade tão lógica, tão racional, que não consegue gerar um único fiapo de riso. A sublimação da normalidade é exposta em suas fraturas e agruras.
Serviço:
"Tipos de Perturbação"
Autor Lydia Davis
Editora Companhia das Letras
Tradução Branca Vianna
Páginas 256
Quanto R$ 41


