LEITURA - Sonhos vendidos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Nos lendários pactos com o diabo, o sistema de troca é lei. O sujeito entrega a alma e recebe aquilo que mais deseja na vida. Como o capeta é um exímio negociador, também aceita em troca outros valores e quinquilharias. A certeza é que, uma hora ou outra, o demo cobrará a dívida.
Imagine um sujeito que fez um pacto como o diabo mas não se lembra do que ofereceu em troca. Com um branco na memória, ele perambula pelas décadas tentando saber o que teria oferecido ao demo. Muito mais do que aproveitar aquilo que o capeta colocou em suas mãos, sua grande preocupação é saber o que entregou ao chifrudo. Aquilo que vai perder.
Essa situação hilária é vivida pelo personagem narrador de ''Crossroads'', novo romance do escritor Furio Lonza que acaba de ser lançado pela editora 34. O próprio título do livro é o nome de um blues de Robert Johnson (1911 - 1938) - músico norte-americano que, segundo a lenda, teria feito um pacto com o diabo numa encruzilhada (''crossroad'' em inglês) para tocar o melhor dos blues.
O protagonista narrador atravessa as quatro últimas décadas (60,70, 80 e 90) disparando ironia, sarcasmo e humor ácido contra tudo e todos. Típico anti-herói, perdeu a revolução política, a musical, a profissional e a sexual. Ficou até mesmo às margens do processo que corria às margens. Por trafegar fora de tudo, consegue ler as coisas com lucidez e contestação.
Como jornalista, escreve reportagens para publicações especializadas da indústria química. Como escritor, pensa em concluir um livro que não consegue começar. Seu ponto de referência é a própria mãe. Imerso em uma coleção de desilusões em sua busca caótica, suspeita que tenha entregado nas mãos do diabo um bem preciso, a felicidade no amor. A realidade deixa claro que as mulheres existem para fazer gato e sapato de seu coração. Tapete de sua pele. Palito de dente de seus ossos. Mas também a realidade deixa evidente que ''as coincidências só acontecem quando a concavidade do tempo se amolda à convexidade da ânsia das pessoas''.
Na voz desse atrapalhado anti-herói, Furio Lonza realiza uma leitura perspicaz das transformações culturais e comportamentais ocorridas no país nas últimas décadas. Uma espécie de inventário onde muitas perdas aparecem travestidas de ganhos. A assustadora velocidade das transformações faz com que o personagem se agarre a seus ideais como se agarrasse a última tábua flutuando no mar.
''Crossroads'' é um romance que trafega entre o ensaio indignado e a narrativa de autoficção. O autor brinca com o sarcasmo para demonstrar que a cada geração os sonhos são sucessivamente vendidos - invariavelmente por alguns poucos trocados. E que a ''reciclagem de valores'' se converteu no discurso mais rentável do mundo.
Autor de 14 livros, Furio Lonza nasceu em Trieste, Itália, em 1953. Aos cinco anos de idade emigrou com a família para o Brasil, estabelecendo-se em São Paulo. Como jornalista atuou em vários periódicos e foi um dos editores da revista ''Chiclete Com Banana'' ao lado de Angeli e Toninho Mendes. Residindo no Rio de Janeiro há 20 anos, atualmente se dedica à dramaturgia.
Há uma grande sutileza de ''Crossroads''. Num discurso iconoclasta de contestação, surge como pano de fundo um romance sobre o amor. Mais do que sobre o amor, sobre sua possível despoluição. No final de tudo, o personagem experimenta a redenção no deserto de acúmulo de informações. O destino, com pacto ou sem pacto com o demo, inverte o previsível. Só a pureza tem um sol que não é apenas seu.
Serviço:
- Crossroads
Autor - Furio Lonza
Editora - 34
Páginas - 288
Quanto - R$ 39
Os anos 80 foram o prenúncio da merda. O mundo parou de seguir seus instintos e começou a agir de acordo com o resultado das sessões de psicanálise: quem antes tinha tido experiências, passou a vivenciar; pessoas que tinham simples piripaques, entraram em surto; os que não acreditavam muito em si foram diagnosticados com autoestima baixa; quem antes se cansava, passou a ter estresse; as pessoas com determinadas características próprias, passaram a ter síndromes. Falaram em comunicação não verbal. Falaram em trabalhar os sentimentos, a incerteza. Exteriorizar a raiva. Conversas mais profundas se tornaram papo-cabeça, Parâmetros viraram paradigmas. O tempo ficou mais curto. Os famosos quinze minutos de fama se transformaram em quinze segundos. Bandas de rock duravam um sucesso, um fim de semana. Reuniam-se na sexta-feira, gravavam no sábado, apresentavam sua música no domingo e, na segunda, todos partiam para a carreira solo.
(Fragmento de ''Crossroads'' de Furio Lonza)


