LEITURA - Sonhos da terra
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de março de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
''Um vivo pisa no chão, um morto é pisado pelo chão''.
Essa frase, pronunciada por um homem acomodado sob sete palmos de terra, pode ser considerada uma espécie de síntese de ''A Varanda do Frangipani'', romance do escritor moçambicano Mia Couto lançado pela editora Companhia das Letras. Uma frase que também funciona como síntese em seu sentido inverso: ''Um morto pisa o chão, um vivo é pisado pelo chão''.
O homem em questão, um simples e humilde carpinteiro, é o narrador de ''A Varanda do Frangipani''. Falecido em 1975, poucos dias antes de Moçambique se tornar independente de Portugal, o sujeito foi enterrado sob uma árvore de frangipani localizada no pátio da Fortaleza de São Nicolau, no alto de um penhasco do Oceano Índico.
Um homem que morreu, mas não conseguiu descansar. Por não ter sido enterrado na posição fetal, segundo as tradições de seu povo africano, se transformou em ''xipoco'', um fantasma que vaga pelo mundo dos vivos. Sua condição de xipoco chega ao fim quando recebe a visita de pangolim vinte anos depois, quando o país tenta contornar a violência da guerra civil.
O pangolim é uma mistura de tatu com tamanduá, um animal raro do continente africano. Sua proposta é de que o xipoco ''grude'' no corpo de um policial que chegará à Fortaleza de São Nicolau para investigar o assassinato do diretor do local, transformado num asilo de velhos há muito tempo. Sabendo que o policial está com os dias contados, sugere uma segunda morte ao xipoco e, consequentemente, um segundo funeral adequado.
O policial, ao colocar os pés no Asilo da Fortaleza, logo percebe que está pisando num mundo desconhecido. Nos depoimentos colhidos, cada um dos velhinhos que residem no lugar declaram-se assassino da vítima. E criam histórias malucas e fantásticas para justificar o crime. Todo princípio lógico da investigação vai para o espaço. É jogado para uma visão de vida, e do país, completamente desconhecida. Emblematicamente simbólica.
Entre os confinados no asilo, por exemplo, está uma mulher que toda noite quando dorme se transforma em água. Sua cama é uma banheira. Está um homem que logo ao nascer se tornou um velho. Está vedado a contar a história de sua vida porque no momento em que narrar o presente estará morto. Enfim, um leque de figuras carregadas de auras fantásticas que possuem uma maneira própria de encartarem a realidade.
Figuras que têm como empenho revelar ao policial a realidade dos acontecimentos a partir de elementos simbólicos e delírios impregnados de razão. Tirar o chão em que ele pisa no presente e colocar sob seus pés o chão do passado. A trajetória entre um chão e outro assume o desenho de uma comunhão de tempos na tentativa de superação de conflitos. Como se a terra estivesse sonhando a resolução dos dramas humanos para conseguir um pouco de paz
''A Varanda do Frangipani'' é um romance que confere um caráter onírico ao mundo real, uma das características da literatura de Mia Couto.
Em suas histórias, o foco central está na mítica do homem, não apenas na cor de sua pele e seus políticos. Sempre trabalhando com referências culturais regionais, opta por um enfoque universal de um tradicional contador de histórias.
Em suas obras, Mia Couto concede à realidade um tratamento próximo do olhar mágico. Algo que geralmente é apontado como similar às narrativas de Gabriel Garcia Márquez. Outra característica do escritor moçambicano é realiza na literatura africana um procedimento semelhante ao realizado por Guimarães Rosa na literatura brasileira. O desenvolvimento de uma linguagem que comporta a reprodução da oralidade praticada em regiões interioranas pouco povoadas, a inversão da lógica normal das frases sem a alteração do conteúdo, bem como a criação de palavras através da junção de significados.
Um dos autores de destaque da literatura africana contemporânea, Mia Couto nasceu na cidade de Beira, em 1955. Filho de imigrantes portugueses e biólogo de formação, é autor de várias volumes de contos e romances, entre eles ''Terra Sonâmbula'', ''Cada Homem é Uma Raça'', ''Estórias Abensonhadas'', ''Contos do Nascer da Terra'', ''Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra'', ''O Outro Pé da Sereia'' e ''O Último Vôo do Flamingo''.
Fragmento de A Varanda do Frangipani de Mia Couto
Aquelas palavras eram chaves que se quebravam dentro das portas depois de as terem aberto. Não serviam duas vezes. Minha mão guardou silêncio e assim, internada em si mesma, me foi arrastando no caminho de casa.
Mãe, qual é a doença que eu sofro?
Minha mãe me apertou com força. Nunca eu sentira tal firmeza em sua mão.
Não posso falar disso, meu filho.
Parecia que ela estava em véspera de lágrima. Mas não, simplesmente virou o rosto. E se afastou, cabisbaixa. Herdei de minha mãe esse modo de entristecer: só quando não choro eu acredito em minhas lágrimas. Naquele momento, restava meu tio para me desvendar os meus padecimentos. O irmão de minha mãe falou:
Você não tem nenhuma idade.
Tinha sido assim: eu nascera, crescera e envelhecera num só dia. A vida da pessoa se estende por anos, demora como um embrulho que nunca mais encontra as destinadas mãos. Minha vida, ao contrário, se despendera toda num único dia. De manhã, eu era criança, me arrastando, gatinhoso. De tarde, era homem feito, capaz de acertar no passo e no falar. Pela noite, já minha pele se enrugava, a voz definhava e me magoava a saudade de não ter vivido.
Serviço:
- Livro ''A Varanda do Frangipani'', de Mia Couto. Editora Companhia das Letras, 152 páginas, R$ 39,00.


