Há uma sensação comum a todo ser humano que aparece nas mais variadas estações: a sensação de estar sozinho no mundo. Aquele tipo de solidão que gruda na pele como roupa gelada. Uma neblina que não se dissipa antes de um novo sol nascer.
Há também outra sensação ainda mais radical: a sensação de estar sozinho dentro de si mesmo. Nesse tipo de solidão, a neblina raramente se dissipa. A possibilidade de um novo sol surgir é quase impossível.
Para se ter uma ideia do que traz ''Solidão Continental'', novo romance de João Gilberto Noll, basta unir essas duas sensações de solidão num único homem. Num único ponto. Num único tempo. E, se possível, sempre nos braços da neblina.
Em ''Solidão Continental'' tudo acontece dentro da cabeça do narrador misturando consciente e inconsciente. Os pensamentos e sensações são os elementos mais palpáveis disponíveis. A realidade, por sua vez, surge como algo radicalmente impalpável, difuso, muito mais delirante do que a própria composição dos pensamentos.
João Gilberto Noll vem trilhando esse caminho há vários romances. O enredo deixou de ser um componente de sua literatura há muito tempo. A impressão é de que o escritor gaúcho está reescrevendo o mesmo livro ao longo dos anos. ''Solidão Continental'' parece ser uma releitura de obras anteriores como ''Acenos e Afagos'' (Record, 2008), ''Lorde'' (Objetiva, 2004), ''Berkeley em Bellagio'' (Objetiva, 2002), ''Canoas e Marolas'' (Objetiva, 1999) e ''Céu Aberto'' (Companhia das Letras, 1996).
Geralmente trata-se do um personagem narrador vagando entre o mundo real e a suspensão do tempo. Presente, passado e futuro comem juntos no mesmo prato como animais educados. A forma determinante do narrador se relacionar com o mundo, bem como com o outro, passa necessariamente pela libido. O elemento libidinal pode ser apontado como o moto-contínuo da existência nas narrativas de João Gilberto Noll. E não se trata meramente da sexualidade básica, mas do corpo se esfregando no mundo para fazer parte dele.
Os fiapos de enredo de ''Solidão Continental'' são simples. O narrador, um professor de língua portuguesa chamado João, revisita a cidade de Chicago. Ele esteve na cidade duas décadas atrás, onde viveu uma história de amor com outro homem. Visitando novamente o hotel onde viveu tal história, encontra o amado na adolescência. O narrador teria envelhecido com os anos e o objeto de desejo, ao contrário, rejuvenesceu.
A partir desse delírio, tempos se misturam e lugares se confundem. A voz do narrador segue vagando sem destino, sempre procurando algo que lhe conceda companhia. Seja o que for. Na maioria das vezes, componentes homoeróticos preenchem tal procura. Outras vezes, qualquer coisa pode ser agarrada, sem distinção. O que interessa não é exatamente aquilo que é agarrado, mas estar próximo de alguma coisa. Um mecanismo da própria solidão.
João Gilberto Noll nasceu em 1946, em Porto Alegre. Frequentou o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul na mesma turma de Caio Fernando Abreu. Publicou seu primeiro livro em 1980, o volume de contos ''O Cego e a Dançarina'' que recebeu o prêmio Jabuti de autor revelação - o primeiro Jabuti de outros quatro recebidos. Em em 1981 lançou ''A Fúria do Corpo'', romance radical onde a libido surge como regente do ''estar no mundo'', elemento marcante de toda sua produção posterior.
Na literatura de Noll, a linguagem é elemento principal. Isso é reforçado em ''Solidão Continental'', lançado pela editora Record. A narrativa é capaz revelar que a realidade é uma convenção. E que adequamos o mundo palpável segundo nossos próprios interesses. Sensatos ou escusos. O real mundo existente seria aquele construído solitariamente dentro de nossas próprias cabeças. Justamente aquele que não pode ser compartilhado com o resto da humanidade.
Embora a solidão apresentada na obra seja cortante e delirante, ela se revela como lâmina de um único fio. Ao final de seu périplo, o personagem narrador encontra simbolicamente uma luz no final do túnel. Justamente a luz do primeiro túnel primordial: a volta ao útero. Quase como um sonho na neblina da solidão.
Uma das grandes virtudes da neblina é dar ao mundo uma forma difusa. Neblina que raramente se dissipa no solitário de si mesmo.

Serviço:
- ''Solidão Continental''
Autor - João Gilberto Noll
Editora - Record
Páginas - 128
Quanto - R$ 27,90

FRAGMENTO:
Ele veio de novo jogando-se macio na minha barriga e eu toquei-o meio confrangido, com um calafrio, e ele em resposta ao meu toque grunhiu sem que eu pudesse significar aquele som e eu empurrei-o contra o solo crestado e me levantei e saí do meu esconderijo resvalando duas vezes e quando me libertei do meu estado subterrâneo, agora inteiro na planura de cima, percebi que o sol descia no horizonte e que precisava saber o que fazer de mim, urgente.
Eu temia não chegar a tempo de poder reconstruir a realidade da qual era oriundo, a do pronto-socorro e tudo mais. Temia, sim, que os médicos e enfermeiros do hospital já tivessem dissolvido a memória de minha internação e se desmanchassem e que, antes desse ponto aqui no fim de tarde, nessa estrada empoeirada sem passantes, tudo o mais seja ilusão cunhada por força do meu próprio desabrigo.
(Fragmento de ''Solidão Continental'' de João Gilberto Noll)

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