LEITURA - Sonho e prudência
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de dezembro de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Um homem do mar. Este é a idéia mais utilizada para definir o navegador brasileiro Amyr Klink. A aventura de atravessar o oceano Atlântico sozinho, da África ao Brasil, a bordo de um pequeno barco a remo, foi tema de seu primeiro livro, ''Cem Dias Entre Céu e Terra'' (1985). A experiência de navegar do pólo sul ao pólo norte foi retratada em sua segunda obra, ''Paratii - Entre Dois Pólos'' (1992). Seu terceiro relato, ''Mar Sem Fim'' (2000), registrava o desafio de circunavegar a Antártida solitariamente utilizando a rota mais complicada.
Seus livros, desde o início, apesar de serem de pertencerem à literatura marítima, receberam a classificação de literatura de aventura. Os leitores que tiveram a oportunidade de acompanhar os desafios de Amyr Klink sabem que seu foco não é meramente a idéia de aventura. Nas páginas de seus relatos, deixou evidente que a preparação da viagem é o maior componente da viagem propriamente dita.
Em seu novo livro, ''Linha-D'água'', Amyr Klink pronuncia esse princípio em alto de bom som. Lançado pela Editora Companhia das Letras, a obra focaliza muito mais o processo de construção de um barco do que as viagens que ele poderá realizar. A aventura de percorrer oceanos torna-se uma consequência, não uma finalidade cega e crua.
''Linha-D'água'' narra algumas viagens realizadas por Klink a bordo do Paratii 2, um grande veleiro criado para viagens coletivas, não solitárias como nos barcos idealizados anteriormente pelo navegador. A mais determinante das viagens, embora receba um relato de poucas páginas, é justamente aquela em que realiza pela Antártida na companhia da esposa e as três filhas pequenas.
Na realidade o grande foco de ''Linha-D'água'' está na construção do Paratii 2. A narrativa está centrada no projeto de tornar uma idéia em matéria capaz de flutuar com segurança pelas adversidades dos mares. Não um barco comum, mas um veleiro com características próprias dentro de todas as tecnologias disponíveis e seguindo as mais variadas inovações idealizadas a partir de experiência anteriores.
Para construir o barco, Klink desenvolveu outros dois projetos simultâneos e interligados: a criação de um estaleiro e de uma marina. Um dos veleiros construídos ao lado do Paratii 2, por exemplo, foi batizado com o nome ''Londrina'' - sendo seu proprietário uma velejador residente na cidade. Numa leitura mais lúcida, em ''Linha-D'água'' representa um exemplo extremamente real da substituição da aventura pelo chamado ''empreendedorismo''. A narrativa deixa o mar num segundo plano para colocar em primeiro plano os procedimentos de realização de uma idéia. O empreender passa a ocupar o lugar material dos sonhos. A abstração deixa lugar para o trabalho lúdico e calculado. Nesse processo, os sonhos assumem a forma de pequenas surpresas completamente discretas.
Mesmo não assumindo a imagem de herói em sua saga contemporâneo, as viagens Klink possuem alguma similaridade com o arquétipo do herói mítico. O herói, nesse contexto, não seria aquele que realiza coisas que o homem comum não consegue realizar, mas aquele que vive a vida em termos de experiência, de conhecimento, do mistério intrínseco da vida e do seu próprio mistério. Algo que confere à vida uma nova luminosidade.
Nos dias atuais, talvez a jornada do herói mítico da Antiguidade tenha sido substituída pela necessidade de experiências concretas, reais e individuais. No entendimento de Amyr Klink, estaria encerrado o tempo em que o homem pode fazer uso de experiências alheias: ''Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.''
Prudência, determinação, trabalho e ousadia são os sentidos mais constantes no relato de ''Linha-D'água''. Uma narrativa em que o autor traça uma nova abordagem do herói mítico onde a intuição sede lugar ao cálculo, o risco dá lugar à tecnologia, a aventura sede lugar ao empreendedorismo, a subjetividade dá lugar ao cuidado com a vida. Uma narrativa extremamente pautada pelo real caminhando com os sonhos guardados seguros nos bolsos.
Serviço:
- Livro ''Lilha-D'água - Entre Estaleiros e Homens do Mar'' de Amyr Klink. Editora Companhia das Letras, 336 páginas, R$ 41,00.


