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Não se pode esperar muita coisa de um homem sensato. Ele sempre seguirá por caminhos certos e seguros, planos e estáveis. Nenhuma surpresa aparecerá na curva.
De um homem insensato pode se esperar de tudo. Ele sempre seguirá por caminhos inesperados e improváveis. Uma nova surpresa a cada curva.

O escritor alemão E. T. A. Hoffmann (1776 – 1822) foi um dos grandes especialistas na criação de personagens insensatos. Em suas histórias, o improvável invade o ser humano através de forças ocultas. Um dos pioneiros da literatura fantástica, Hoffmann gostava de inserir o medo em suas invenções narrativas. Também gostava de eliminar as fronteiras entre sonho e realidade, entre fantasia e mundo real.

A editora Estação Liberdade acaba de lançar uma nova coletânea de contos de Hoffmann intitulada "O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos". Organizada por Maria Aparecida Barbosa, professora de Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, o livro reúne 10 contos que oferecem um panorama da literatura desenvolvida por Hoffmann.

A narrativa que dá título ao volume, "O Reflexo Perdido ou As Aventuras da Noite de São Silvestre", remete ao lendário pacto com o diabo. Um tema também abordado na mesma época por outro escritor alemão, Johann Wolfgang van Goethe (1749 – 1832), no clássico "Fausto".

Narra a história de Erasmus, um sujeito que empreende uma longa viagem para Florença. Ao se despedir da esposa jura voltar em breve. O drama é que, no caminho, ele conhece outra mulher, a deslumbrante Giulietta.

Erasmus se apaixona por Giulietta e, na hora de voltar para casa, entra em parafuso. Não consegue abandonar a amante para voltar para a esposa. Também não consegue abandonar a esposa para ficar com a amante. Nesse momento, conhece um sujeito que sugere um pacto com o diabo para se dividir em dois. Assim, deixa para sempre seu reflexo no espelho de Giulietta e segue de volta para os braços da esposa.

Aquilo que parecia uma ótima solução se transforma num tremendo problema. Por onde passa, seu reflexo não aparece em nenhum espelho, começa a ser execrado. A própria esposa não o reconhece como marido. Só lhe resta uma saída: vagar pelo mundo em busca do reflexo perdido.

O volume também traz um dos contos mais conhecidos de Hoffmann: "O Homem-Areia". Narra a história de um garoto que morre de medo de um personagem do folclore germânico, uma espécie brasileira de Cuca ou Homem-do-Saco. Uma figura medonha que as mães faziam uso para obrigarem as crianças a dormirem cedo.

A imagem é cruel: "Ele é um homem malvado, que vem até as crianças quando elas não querem ir para a cama e lhes atira aos olhos uma mão cheia de areia, de modo que estes saltam ensanguentados cabeça afora. Ele então os atira num saco e os carrega à meia-lua para alimentar os filhotes; eles se sentam lá no ninho e têm bicos curvados como as corujas, com os quais picam os olhos das crianças custosas."

Para entender a ideia, o psicanalista alemão Sigmund Freud (1856 – 1939) utilizou o conto "Homem-Areia" para exemplificar sua tese sobre como o ser humano gosta de sentir medo mesmo tendo pavor do medo.

O fato é que o garoto cresce e, na idade adulta, acaba se apaixonando por uma mulher perfeita. O mundo cai quando ele descobre que a moça não é humana, mas um sofisticado modelo de autômato (uma espécie de pré-robô, ou pré-replicante, do século 18). O mundo despenca quando ele vê os olhos da amada sendo retirados para manutenção.

Biografia
E. T. A. Hoffmann nasceu como Ernst Theodor Wilhelm Hoffmann na Prússia Oriental em 1776. Seguiu a carreira de jurista ao longo de décadas nas cidades de Berlin e Varsóvia. Apaixonado pela musica clássica romântica, retirou de seu nome Wilhelm para adotar no lugar Amadeus numa declaração de admiração ao compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791). Faleceu em 1822, com 46 anos de idade, com a saúde abalada pelo excesso do consumo de álcool e pela sífilis.

A obra de Hoffmann possui uma estreita ligação com a música. Dois de seus contos derem origem a dois balés clássicos, "O Quebra-Nozes" com composições de Tchaikovsky e "Coppélia" com composições de Léo Delibes. O conto original "O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos", que serviu de base para o balé, é um dos textos que integram "O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos".

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Serviço:
"O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos"
Autor – E. T. A. Hoffmann
Editora – Estação Liberdade
Organização e tradução – Maria Aparecida Barbosa
Páginas – 264
Quanto – R$ 42

Fragmento

Acabara de entrar numa cidade grande, porque seu cavalo castigado carecia de repouso, e sentou-se sem a menor cerimônia à mesa de refeições da estalagem, repleta de fregueses. Não atentou, entretanto, para o belo e claro espelho pendurado bem à sua frente. Um maldito garçom que se encontrava atrás de Erasmus reparou que do outro lado no espelho a cadeira permanecia vazia e não havia o reflexo do homem que a ocupava. O impertinente logo comunicou a observação ao vizinho e Erasmus, esse por sua vez ao freguês seguinte, e assim por diante toda a freguesia cochichava olhando ora Erasmus, ora o espelho.
O pobre ainda não se dera conta de que o cochicho lhe dizia respeito quando um senhor idoso e sério se levantou, veio até ele, o levou para perto do espelho e constatou o rumor. Virou-se então para a assembleia e gritou com voz bem inteligível:
– De fato, pessoal, o sujeito não possui reflexo no espelho!
– Não possui...
– Homem malvado, um homem nefasto.
Erasmus, coberto de raiva e vergonha, correu refugiar-se no quarto, mas mal chegara ali foi procurado por um agente da polícia com a notificação de que deveria por bem comparecer em uma hora ante as autoridades locais, munido de um reflexo similar completo, ou teria de deixar a cidade sem demora.
Ele precipitou-se embalado para a estrada, escorraçado pela cambada ociosa e os moleques de rua que não cessavam de lhe gritar desaforos:
– Lá vai a galope aquele que vendeu o reflexo ao diabo!

("O Reflexo Perdido" que integra "O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos" de E. T. A. Hoffmann)

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