LEITURA - Sombras da loucura
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Joseph Conrad tinha 16 anos quando viu o mar pela primeira vez. O impacto daquela imensidão colocou um novo brilho em seus olhos. Decidiu que, a partir daquele dia, viveria cercado pelas ondas. Seria um marinheiro errante, a bordo de um navio, seria um espírito livre ao sabor do vento.
Nascido na Polônia em 1857, foi registrado como Józef Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski. Como marinheiro realizou viagens pelos sete mares. Mas como não viveu nenhuma das histórias repletas de aventuras que lia nos livros, resolveu deixar o mar de lado e viver ancorado. Com 37 anos, abandonou a profissão de marinheiro para inventar histórias. Começou a escrever contos, novelas e romances repletos de homens misteriosos vagando por cais de portos, marinheiros delirantes jogando a vida nos mares, tempestades enlouquecendo navios, lugares exóticos e sombrios devorando a alma dos incautos, destroços de barcos esquecidos ao lado de destroços humanos.
De humilde marinheiro, ele se tornaria um dos grandes nomes da literatura de língua inglesa - língua que adotou para escrever seus textos. Mas conhecido como Joseph Conrad, faleceu em 1924 deixando obras como ''O Coração das Trevas'', ''Lord Jim'', ''O Tufão'', ''O Espelho do Mar'', ''Nostromo'' e ''A Flecha de Ouro''. ''Coração das Trevas'', publicado originalmente em 1902, é um de seus textos mais enigmáticos, um clássico coberto pelas sombras do espírito humano e pelas brumas da violência. Considerado um clássico, o cineasta Francis Coppola realizou uma adaptação atordoante da história para o cinema, em 1974, com o título ''Apocalypse Now''.
A editora Companhia das Letras está colocando nas livrarias uma nova tradução de ''Coração das Trevas'' em edição pocket. Para quem ainda não conhece a literatura de Joseph Conrad, a novela é uma ótima oportunidade para entrar em contato com a atmosfera sombria e misteriosa dos personagens criados pelo escritor. A edição ainda traz o conto ''Um Posto Avançado'' e um posfácio escritor pelo historiador Luiz Felipe Alencastro.
''Coração das Trevas'' é o relato de um navegador sobre um acontecimento do passado que deixou profundas marcas em sua memória. Contratado para navegar pelos rios da África para transportar marfim para a Europa, ele entra em contado com um mundo completamente desconhecido. Em seu relato, apresenta sua relação com a região, com os nativos escravizados e, principalmente, com um misterioso homem chamado Kurtz.
Uma aura oculta envolve a figura de Kurtz. É um sujeito que consegue extrair marfim da África em quantidades nunca vistas. Ninguém sabe ao certo como ele consegue tal proeza, mas é cultuado como um homem superior aos demais. Um homem que consegue sobreviver num mundo onde a morte é soberana. Um mundo onde o sinistro e a violência fazem parte do cotidiano.
''Coração das Trevas'' oferece uma ampla gama de interpretações e leituras. Ambientado no final do século 19, o romance de Conrad apresenta as vielas da colonização européia da África. E o retrato apresentado é, no mínimo, assustador. Uma época em que a Europa começa invadir variadas partes do mundo com objetivo de usurpar suas riquezas naturais para azeitar a máquina da industrialização capitalista. Um retrato sombrio da degeneração moral do colonialismo europeu.
Além dessa abordagem histórica, outra leitura sugere algo de maior impacto: o mergulho de um homem nas trevas para tentar encontrar o âmago de sua existência. O narrador de ''Coração das Trevas'', além de mergulhar nas trevas de um ambiente estranho, também mergulha em seu íntimo. Utiliza, para isso, a imagem do outro, no caso a misteriosa figura de Kurtz. Além da aventura de sua viagem geográfica, o narrador realiza uma outra viagem, sombria e perturbadora em direção às possibilidades da integridade moral.
A capacidade descritiva da literatura de Joseph Conrad tem a propriedade de levar o leitor a um deslocamento de tempo e espaço. Onde o outro pode operar não apenas como espelho, mas como um duplo oculto que submerge das trevas, que esconde a tranquilidade num cofre forte e joga a chave fora. A narrativa desenvolvida por Conrad em ''Coração das Trevas'' sugere que loucura não é algo estranho à realidade. A loucura seria a própria realidade.
SERVIÇO
- O Coração das Trevas
Autor - Joseph Conrad
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Sergio Flaksman
Páginas - 180
Quanto - R$ 19,50


