Alguns escritores não ganham notoriedade por textos que defendem com unhas e dentes. Não se tornam conhecidos pelas obras que escolheram e esperam ser condecorados. Muito pelo contrário, alguns autores conquistam fama por algo que não esperavam, por textos que não pensavam publicar, que nunca imaginaram tornar público.
Esse é o caso de Rainer Maria Rilke (1875 - 1926), considerado um dos principais poetas de língua alemã da literatura universal. Embora tenha escrito dezenas de livros de poesia, ficou mais conhecido por suas cartas publicadas postumamente. Mais especificamente um conjunto de cartas que ficou conhecido sob o nome de ''Cartas a Um Jovem Poeta''.
No Brasil, ao longo das décadas, essas cartas ganharam várias edições com tradução de figuras como Cecília Meireles, Paulo Rónai, Manuel Bandeira, Geir Campos e Otto Maria Carpeaux, entre outros. A correspondência de Rainer Maria Rilke acaba de ganhar uma nova edição lançada pela editora Estação Liberdade dentro do volume ''A Melodia das Coisas'', que reúne ensaios, contos e cartas do poeta.
Toda história começa em 1903, quando um jovem chamado Franz Xaver Kappus tem a coragem de enviar uma carta a Rilke, um poeta com renome na época. Na correspondência, Kappus afirmava que deseja se tornar poeta e solicitava algumas dicas e toques a Rilke. Tem início então uma troca de cartas que se estenderiam por um período de cinco anos.
Rilke e Kappus nunca se conhecerem pessoalmente. Todo o contato que estabeleceram foi através de cartas. Para a posteridade restaram apenas as cartas escritas por Rilke, com seus ensinamentos sobre como uma pessoa pode entrar no universo da poesia. E, curiosamente, após todo o ensinamento oferecido pelo mestre, o aspirante a poeta desistiu da poesia. Kappus simplesmente percebeu que não tinha condição de colocar em prática a ideia de poesia, totalmente vinculada à vida, apresentada por Rilke.
Nos ensinamentos sobre poesia presentes nas cartas de Rilke, não há nenhuma teoria literária, nenhuma técnica de versos, nenhum método de escrita. Todos eles tratam da vida. Do alimento interior que gera a poesia. Como o poeta deve entrar em si mesmo, percorrer o mais profundo dos labirintos e sair contaminado com alguma coisa para contar.
Na verdade, Rilke não está falando apenas de poesia, e talvez seja esse ponto que conquiste os mais diferentes leitores nas mais variadas épocas. Ele está falando da necessidade de cada ser humano conhecer a si mesmo para se relacionar com o mundo. Algo que já foi dito de várias formas ao longo dos séculos e milênios e sempre precisa ser relembrado: olhar para dentro é tão importante quanto olhar para fora.
Um dos mais belos conceitos presentes nas cartas está na ideia de solidão defendida por Rilke. Para ele, a solidão seria o tempo e o espaço reservado para a manifestação da essência de cada pessoa. E a solidão não estaria, de forma alguma, vinculada à tristeza sombria ou à melancolia escura. A solidão, aquela necessária, seria algo como uma flor ao sol.
Organizado por Claudia Cavalcanti, ''A Melodia das Coisas'' também traz quatro contos que só servem para demonstrar como Rainer Maria Rilke era um ótimo poeta e um péssimo contista. Além das cartas dirigidas ao jovem poeta, traz cartas enviadas a duas mulheres presentes na vida de Rilke: Clara Rilke (esposa) e Lou Andreas-Salomé (amante).
Nascido em 1975 numa família de língua alemã na cidade de Praga sob o domínio do Império Austro-Húngaro, recebeu o nome oficial de René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke. Sua mãe o vestiu com roupas femininas até o cinco anos de idade. O pai, de origem militar, procurou corrigir as coisas internado o garoto numa escola militar. No exército um novo trauma se desenvolveu.
Rilke Foi secretário do escultor Auguste Rodin (1840 - 1917) ao longo de quase uma década. De saúde frágil, nunca teve uma residência fixa, viveu de país em país, de castelo em castelo abrigado por ricas esposas de nobres fãs de seus versos.
Um dos ensinamentos propagado pelo poeta é de que ''as coisas não são assim tão compreensíveis e dizíveis como quase sempre gostaríamos de acreditar - a maior parte dos acontecimentos é indizível, ocorre num espaço em que nuca entrou uma palavra, e as mais indizíveis de todas são as obras de arte''. Não haveria outro jeito a não ser atingir o tutano da flor ao sol.

Serviço:
- A Melodia das Coisas
Autor - Rainer Maria Rilke
Editora - Estação Liberdade
Organização e tradução - Claudia Cavalcanti
Páginas - 232
Quanto - R$ 43

Fragmento:
Esse progresso transformará a vivência do amor, que agora está plena de equívocos (a princípio muito a contragosto dos homens superados), irá modificá-los profundamente, remoldá-los numa relação de pessoa para pessoa, não mais de homem para mulher. E esse amor mais humano (que se realizará de forma infinitamente respeitosa e discreta, na união e, também, na dissolução) se assemelhará àquele que preparamos lutando e com esforço, o amor que consiste em que duas solidões se protejam, se limitem, se saúdem mutuamente.

(Fragmento de ''Carta de 14 de Maio de 1904'' que integra ''A Melodia das Coisas'' de Rainer Maria Rilke)

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