LEITURA - Só mais uma ferida
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de novembro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Na história da literatura russa, o século 19 é considerado a idade de ouro da prosa. Escritores como Fiódor Dostoievski, Liev Tolstói e Anton Tchekhov, entre outros, concederam à prosa uma caráter iluminado.
O século 20, por outro lado, é considerado o jardim florido da poesia russa. Poetas como Vladimir Maiakovski, Sierguiei Iessiênin e Vielimir Khlébnicov, entre outros, deram aos versos uma escada capaz de galgar os pontos mais altos da literatura.
Se prosa russa do século 19 foi um território extremamente dominado por homens, a poesia do século 20, por outro lado, não. Duas mulheres tornaram expoentes dessa arte: Anna Akhmátova (1889 1966) e Marina Tsvietáieva (1892 1944). Além de criarem uma poética de extrema qualidade, tiveram uma vida pontuada pelo sofrimento.
Anna Akhmátova e Marina Tsvietáieva assistiram seus maridos, filhos, amigos e amantes serem presos e fuzilados pelo regime político russo ou morrerem nas guerras que abalaram a Europa. Anna aguentou a barra até o fim, Marina não. Seguindo o exemplo de seus amigos Maiakovski e Iessiênin, cometeu suicídio.
Marina Tsvietáieva construiu uma poesia onde a sofisticação da linguagem ocupa lugar de destaque. O modo como ela diz coisas aparentemente simples cria muito mais sentidos do que imagens. Sentimentos e emoções dão lugar à objetividade de percepção, sem deixar de lados associações que complementam o conteúdo.
Uma boa oportunidade para entrar em contato com a poesia de Marina está em ''Marina'' livro lançado pela Travessa dos Editores. O volume oferece uma mostra, mesmo que pequena, da melhor característica da poeta. A tradução, diretamente do russo, foi realizada por Décio Pignatari, um dos criadores do movimento da Poesia Concreta ao lado dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos.
Além dos poemas, o livro traz três ensaios de Pignatari. Num deles, defende a tese de que a ''tradição da tradução'' na literatura brasileira teve início com o movimento concretista. Em outro apresenta o conceito de ''outradução'', que utilizou para verter os versos de Marina do russo para o português. No último, discorre sobre os episódios da vida da autora.
O valor principal de ''Marina'' está claramente nos poemas. Merece destaque ''Poema do Fim'', poema longo dividido em nove partes em que Marina fala sobre o término de uma relação amorosa. Ou melhor, a desconstrução de elementos que fazem duas pessoas se aproximarem para depois se separarem. Os elementos utilizados abrem um imenso leque de maneiras de se entender a inconstância do amor. Em seus versos insere, dentro da condução do tema, a descontinuidade, a quebra do discurso, observações internas e externas numa mesma frase.
Marina sabe do que está falando. Sua vida amorosa foi um verdadeiro vendaval. Casou ainda jovem e, mesmo ao lado do marido, manteve um amplo leque de amantes, homens e mulheres. Era uma mulher de paixões avassaladoras que tinham um período restrito, mas capazes de destelhar casas e derrubar árvores. Cada paixão dava origem a uma nova ferida a ser cicatrizada com o unguento de uma nova paixão.
Passou metade de sua vida fora de seu país, em vários países da Europa. Quando voltou à Rússia, foi tratada com uma indiferença gélida. Sem trabalho foi colocada pelo Estado numa cabana de um pequeno vilarejo, numa espécie de exílio. Nessa cabana, quando não aguentou mais a barra, amarrou uma corda nos caibros e se enforcou. Seu corpo foi enterrado em lugar desconhecido e até hoje não existe uma lápide com o nome Marina Tsvietáieva.
Serviço: ''Marina'', poemas de Marina Tsvietáieva, Travessa dos Editores (41/3338-9994), tradução e prefácios de Décio Pignatari, edição bilíngue, 152 páginas, capa dura, R$ 32,00.


