Imagine Rubem Fonseca falando sobre pipoca. Aquele escritor sério e ranzinza que odeia conceder qualquer espécie de entrevistas, que dispara ofensas aos fotógrafos, discorrendo sobre as virtudes da pipoca, falando sobre a felicidade que a pipoca é capaz de proporcionar no escuro do cinema.
Imagine Rubem Fonseca falando não apenas de pipoca, mas das vantagens da masturbação, da popularização do botox, da pornografia na pré-história, de bula de remédio, futebol da Seleção Brasileira, sobre as experiências com chipanzés escritores e muito mais. Até mesmo encarando a figura de Michael Jackson como precursor de alguma coisa completamente indefinida.
Este imaginável Rubem Fonseca está presente em ''O Romance Morreu'', livro lançado pela Companhia das Letras que reúne crônicas do ficcionista escritas ao longo dos últimos anos e publicadas no site Portal Literal. Os textos são marcados por uma fluida descontração bem-humorada que passeia pelos mais variados temas e relatos de viagem.
As crônicas de Rubem Fonseca, apesar de trafegar por temas cotidianos e frívolos, são carregadas de informações. Tudo indica que, para escrevê-las, o autor escolhe determinado tema e realiza uma pesquisa sobre o assunto. Em seguida apresenta essas informações temperadas de comentários através de uma condução narrativa pontuada por amplas leituras. Seja com pipocas, macacos, árvores ou cinema, faz um passeio pelo simbolismo do cotidiano.
Em ''Jack, o Estripador'', o escritor escolhe como tema os mecanismos dos crimes em série. Para abordar o assunto, parte de Jack, o famoso sujeito que matou e estripou várias prostitutas em Londres do século 19 e nunca foi preso. Focaliza a lendária pesquisa realizada por Patrícia Cornwell, consagrada autora de romances policiais que teria descoberto a verdadeira identidade do nebuloso Jack. Tudo para chegar à fatal conclusão de que, geralmente, os criminosos moram ao lado.
Em ''Exitus Letaris'' o autor fala sobre o teor literário presente nas bulas de remédios. Com bom humor, escolhe alguns casos para representar que os textos das bulas estão mais próximos da literatura do que das ciências médicas. E que elas existem não para informar os usuários de remédios, mas para evitar que os laboratórios sejam processados caso alguma coisa dê errado. Tipo o usuário bater as botas.
Entre os relatos de viagem, Fonseca descreve suas andanças por Nova York, Berlin, Israel, Galícia e Cuba. Em ''Reminiscências de Berlim'', narra sua experiência de presenciar a queda do Muro de Berlim em seu sentido literal. Um relato semelhante ao que Domingos Pellegrini realiza em seu mais recente romance ''Quadrondo'' (Editora Record, 2007).
Na crônica que dá título ao livro, ''O Romance Morreu'', Rubem Fonseca aborda os vários momentos em que o romance foi considerado moribundo. Graças ao aparecimento das invenções modernas, um punhado de gente profetizou o fim do gênero. Quando o automóvel se tornou um bem de consumo popular, alguns afirmavam que ninguém ficaria mais em casa sentado no sofá com um livro nas mãos. Depois, passaram a afirmar que o cinema iria acabar com a leitura. Em seguida, que o advento da televisão faria o mesmo. O autor levanta a tese de que os leitores podem até se extinguirem, mas os escritores não. Teimosos, eles manteriam a resistência da existência dos livros. Isso por que, em alguns casos, os escritores escrevem para si mesmo, não para leitores. Tudo indica que esse não é o caso de Rubem Fonseca.

Serviço:
- ''O Romance Morreu'', de Rubem Fonseca. Editora Companhia das Letras, 200 páginas, R$ 37,00.

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