Rita Lee em 2016, próxima de completar 70 anos e abandonando as tinturas de cabelo
Rita Lee em 2016, próxima de completar 70 anos e abandonando as tinturas de cabelo



Anos atrás Rita Lee afirmou que não via nenhum sentido na proibição das biografias não autorizadas. Defendia que as pessoas tinham o direito de escrever e publicar a história de vida de qualquer um. Mas deixou claro que desejava oferecer sua própria visão de sua existência escrevendo uma autobiografia.
Cumprindo a promessa, prestes a completar 70 anos no próximo 31 de dezembro, a cantora e compositora está lançando "Rita Lee – Uma Biografia". Publicado pela editora Globo, o livro traz as memórias da mulher que deixou profundas marcas comportamentais no rock nacional – um território proeminente masculino e machista.
O relato de Rita Lee é banhado pelo humor e por algumas doses de sarcasmo. Em relação a tudo e todos, inclusive consigo mesma. Sem subterfúgios ou pudores, fala diretamente de todo tipo de lembranças e acontecimentos. Logo nas primeiras páginas, por exemplo, revela como perdeu a virgindade quando tinha apenas seis anos vítima de um abuso sexual. Um técnico, que veio à casa da família para consertar a máquina de costura da mãe, fez uso de uma chave de fenda para o supremo absurdo.

Rita em seu quarto no final da década de 1960
Rita em seu quarto no final da década de 1960 | Foto: Reprodução



"Sou péssima para datas" avisa logo de cara. E também deixa claro que sua memória não é nenhuma jovem beldade que nunca usou nenhum tipo de droga. Para oferecer datas e informações objetivas criou um divertido personagem chamado Phantom. Um fantasminha que aparece de vez em quando para oferecer dados que preenchem as lacunas do esquecimento.
Sobre o início de sua vida com Os Mutantes (1966) suas palavras são: "Aceitei me transformar em para-raio de ‘freakes’, porto seguro dos rebeldinhos sem causa, musa dos perdidos numa noite suja da Pauliceia. Ali estava eu, imaginando-me uma mulher misteriosa, quando sabia muito bem não passar de uma tolinha. Notei que artistas usavam uma máscara ‘fake’ para disfarçar suas próprias canalhices, então eu, que nem artista era, viveria tantos personagens quanto sonhasse minha vã futilidade. O importante era não me levar a sério. Eu seria mais uma impostora."
Uma das várias passagens hilárias do relato está quando Rita confessa que literalmente lambeu a maçaneta que os Beatles colocaram a mão na porta gravadora Apple, em Londres. Ou quando quebrou na porrada o escritório de uma grande gravadora com a ajuda de Tim Maia.
Sobre sua saída de Os Mutantes, Rita repete sua versão de décadas: foi expulsa do grupo por não ser uma instrumentista no momento em que os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias desejavam entrar de cabeça no rock progressivo.
Rita Lee, diz, em várias partes de seu relato, que o rock brasileiro sempre foi um "clube do Bolinha". Que o argumento recorrente entre os músicos era que para fazer rock "precisava ter culhão". Seu grande esforço residia em provar para si mesma "que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê".

Rita, em 1975, ao lado de Tim Maia
Rita, em 1975, ao lado de Tim Maia | Foto: Reprodução



BARRA PESADA
Durante a ditadura militar, Rita teve inúmeras músicas proibidas pela censura por "atentado aos bons costumes". Mas a grande punição veio quando aceitou depor contra um policial militar que assassinou um jovem no meio de um de seus shows. Grávida de quatro meses do primeiro filho, foi presa por porte de maconha como vingança e represália por integrantes da polícia militar. Na cadeia teve uma hemorragia que colocou em risco a vida da criança, mas foi sumariamente proibida de receber atendimento médico.
Quem resolveu a questão foi Elis Regina que, um belo dia, chegou na delegacia com o filho pequeno e exigiu do delegado e dos policiais que Rita tivesse atendimento médico: "Céus, quem seria essa santa porreta que me aparece exatamente na hora que mais preciso, Nossa Senhora das Roqueiras? Chego corcunda de dor na sala do delegado e quem vem me dar um abraço dos mais fofos que já recebi na vida? Elis, aquela que fazia cara feia para os roqueiros! Elis, a musa mor da MPB! Elis, a maior cantora do Brasil! Lá estava ela de mãos dadas com o filho João peitando os milicas."
Sobre as loucuras e o uso de drogas, Rita Lee não se faz de falsa carola. Não atenua nada: "Não faço a Madalena arrependida com discursinho antidrogas, não me culpo por ter entrado em muitas, eu me orgulho de ter saído de todas. Reconheço que minhas melhores músicas foram compostas em estado alterado, as piores também."
No final de "Rita Lee – Uma Autobiografia", o leitor fica com a impressão de conhecer a vida de uma mulher que apostou tudo em suas posições malucas numa sociedade de princípios masculinos e conservadores. Fica evidente que suas condutas, certas ou erradas, abriram caminhos para as gerações seguintes. Impossível não perceber, em sua trajetória, a valorização da sexualidade feminina no caminho de equiparação com a sexualidade masculina. E como sua postura rock abriu os olhos de muita gente para as mudanças culturais.
O inconformismo parece ser um dos elementos da história de Rita. Algo como dar alguns passos além daquilo que a moral conservadora espera do papel de uma mulher na família e na sociedade. Uma mulher que consegue escolher como epitáfio que deve ser grafada em sua lápide a humilde síntese: "Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa."

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Santa maturidade transviada
| Foto: Reprodução



Serviço:
"Rita Lee – Uma Autobiografia"
Autor – Rita Lee
Editora – Globo
Páginas – 296
Quanto – R$ 44,90

"O pior inimigo da criatividade é o bom-senso, mudar, mudar, mudar, nem que seja para pior. Dói mais sorrir em público do que chorar sozinha, mas não devo levar a vida tão a sério porque ninguém sai dela vivo. Debochar de mim mesma é uma estratégia que sempre dá resultado positivo. Uma das coisas que mais me dão prazer é fazer o que não devo, tipo fumar na frente de quem faz campanha anticigarro. *** "Quando o casal Bill &Hillary Clinton veio dar umas bandas por aqui, o casal Fernando Henrique & Rute organizou um jantar no Alvorada, convidaram poucos plebeus, entre eles, Sonia Braga e o casal Lee & Carvalho. Protocolos, lugar cento nas mesas, clima simpático, comida bacana etc. Num dado momento, Sonia e eu resolvemos ir ao toalete fofocar. Ela fumou um Marlboro e eu um baseadinho. Fumar cannabis em banheiros presidenciais é meio clichê, mas foi irresistível usar o lugar mais seguro do país para sair da lei." *** "Sempre soube da minha voz fraquinha e meio desafinada, sem potência alguma. Alguns amigos dizem que me autodeprecio demais. Não sei, quero crer que eles é que me amam demais. Nos registros dos hotéis, no item ‘profissão’, eu nunca escrevia ‘cantora’ (cá pra nós, até acho meio brega) e para camuflar meu complexo de inferioridade vocal eu preenchia ‘compositora’, e quando me sentia mais segura, ‘musicista’." *** "Os ensaios na casa dos Baptistas se tornavam cada vez mais frequentes. Eu praticamente era da família e aos poucos fui me adaptando ao fato de se tratavam de uma gente arrogante, ‘pero’ generosa, palmeirense, ‘pero’ mão roxa, riquinha ‘pero’ pouco asseada. Avançavam na comida antes de chegar à mesa, falavam alto de boca cheia e, para meu completo nojo, bebiam no gargalo da mesma garrafa de Coca-Cola passada de mão em mão. Isso quando os irmãos não comiam nos próprios quartos, verdadeiros chiqueiros, ou nas salas abarrotadas de alto-falantes, esqueletos de instrumentos, montanhas de livros do pai e o megapiano de cauda da mãe, que nessas ocasiões servia de mesa."
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