LEITURA - Sangue, suor e gordura
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de maio de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Quem possui mais valor, um país ou as pessoas que habitam esse país? O escritor irlandês Roddy Doyle, no romance ''Uma Estrela Chamada Henry'', oferece uma resposta peculiar para a questão. Colocando de lado o senso comum de que normalmente os homens morrem e a pátrias permanecem, mostra que numa pátria inundada de mortes os pólos se invertem. Um país banhado de mortes é mais moribundo do que as pessoas que nele residem. Nesse sentido, a nação passa e as pessoas ficam.
Em ''Uma Estrela Chamada Henry'', Roddy Doyle narra a história de Henry, um homem que não teve infância nem juventude. Aos seis anos de idade saiu de casa para viver na ruas. Aos quatorze já era um guerrilheiro com um fuzil nas mãos lutando pela liberdade da Irlanda contra o colonialismo inglês. Amadurecido pela pobreza e pela violência, assume a imagem do herói em busca de liberdade, tanto individual como coletiva.
Embora tenha componentes que o classificam como um romance histórico, ''Uma Estrela Chamada Henry'' foge claramente a essa categoria. Retratando a caótica situação social e política da Irlanda no início do século 20, faz um desenho sutil das nebulosas entranhas do poder político. Com as ferramentas da literatura, abre o ventre do poder e mostra suas vísceras.
O próprio Roddy Doyle, nascido em Dublim em 1958, faz questão de afirmar que a obra não deve ser vista como romance histórico. Isso porque deixou muitos fatos reais de lado e inventou um punhado deles. Para ele a Irlanda é um tanto país que nasceu da violência como uma nação povoada de farsas espalhadas pela história oficial.
''Uma Estrela Chamada Henry'', publicado pela Editora Estação Liberdade, é o primeiro livro em que o escritor se aventura pelo universo da violência de seu país. Apesar de suas outras obras como ''Paddy Clarke Ha Ha Ha'' e ''O Furgão'' serem ambientadas em solo irlandês, estão mais centrada nas relações humanas. Seus maiores personagens são sempre masculinos, homens e meninos de subúrbios.
Em ''O Furgão'', por exemplo, Roddy Doyle consegue tratar do universo masculino com sensibilidade, enfocando a relação cotidiana de amizade entre os homens, sem deixar de lado os palavrões, bebedeiras, brigas, arrotos, partidas de futebol e outras coisas. A história está centrada na amizade de Jimmy e Bimbo, dois pais de família do subúrbio de Dublin que dividem o gosto pela cerveja, futebol, e conversa fiada. Desempregado, Jimmy passa os dias procurando alguma coisa ocupação. Padeiro, Bimbo perde o emprego onde trabalha desde a infância. O fato de os dois estarem sem trabalho favorece o aprofundamento da amizade.
Bimbo resolve comprar um furgão abandonado e usá-lo para montar uma barraca para venda de hambúrguer inundado de batata frita. Chama Jimmy para trabalhar com ele, como sócio. Depois de reformarem o furgão saem pelas ruas do bairro vendendo lanches a preço de banana. Como ambos nunca trabalharam no ramo, atravessam vários problemas e atrapalhadas humoradas. Sendo pequeno, sem ventilação, sem água, sem motor, o furgão se torna uma verdadeira banheira de gordura. Apesar de tudo o dinheiro vai entrando, vivem momentos de felicidades até as brigas e desavenças começarem.
Com o tempo toda a gordura acumulada no furgão, a gordura acumulada nas relações humanas tornam-se insuportáveis. Entre bate-bocas, palavrões,socos e pontapés, Bimbo e Jimmy resolvem preservar a amizade e mandar o motivo das desavenças, o trabalho, para o inferno.
A figura de Henry, o herói de ''Uma Estrela Para Henry'', é emblemática e sedutora. Filho de um segurança de uma casa de prostituição com uma jovem sonhadora, nasceu na parte mais miserável de Dublin. Além de leão-de-chácara, o pai é um matador profissional que cumpre ordens sem saber de onde elas surgem ou se as vítimas merecem morrer. Com sua perna postiça, racha os crânios e joga os corpos nos rios da cidade.
Em suas andanças, Henry se apaixona pela mulher que tenta lhe ensinar a ler e escrever. Juntos, tornam-se o casal de guerrilheiros mais implacáveis do país. Vivem um amor banhado de sexo e liberdade. As peripécias do casal seguem em frente mesmo quando os revolucionários começam a ganhar poder político e amenizam seus atentados. Então, o casal rebelde começa a representar perigo ao novo poder político que começa a tornar-se oficial.
O ponto alto da narrativa é quando, nesse processo todo Henry, aos 20 anos de idade, troca a violência pela ternura. Como se realizasse o caminho contrário de sua existência, troca sua ansiedade adulta pela contemplação infantil. A narrativa de Roddy Doyle nessa direção é de uma elegância arrebatadora, onde a liberdade social não pode abarcar a liberdade individual.
Para conquistar a liberdade plena, o herói precisa limpar seu dolorido passado, bem como purificar o fantasma do pai. Nesse contexto, sua liberdade só será possível com a anulação de seu passado. Em outras palavras, ter liberdade é não ter passado.
Serviço:
- Livro ''Uma Estrela Chamada Henry''de Roddy Doyle, Editora Estação Liberdade, tradução de Lidia Luther, 384 páginas, R$ 43,00.
- Livro ''O Furgão'' de Roddy Doyle, Editora Estação Liberdade, tradução de Lidia Luther, 267 páginas, R$ 39,00.


