LEITURA - Sangue de beija-flor
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de março de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O início de um livro suas primeiras páginas pode ser decisivo aos olhos do leitor. Pode produzir um efeito sedutor impulsionando a leitura como vento forte. Pode também dar origem a um enfado, como se jogasse areia na engrenagem da leitura.
Em seu novo livro, ''Vista do Rio'', o escritor carioca Rodrigo Lacerda optou por criar um verdadeiro vendaval nas primeiras páginas. Descrevendo uma imagem carregada de significados e de forte impacto, abre as portas do romance para que o leitor siga em frente. Traça, de certa forma uma espécie de síntese inconsciente da história a ser narrada.
A cena descreve dois garotos exercitando o característico sadismo da infância. Um beija-flor, pássaro símbolo da leveza e da delicadeza, é colocado dentro de um liquidificador. A experiência consiste em ligar o motor e ver quanto tempo o bichinho consegue ficar voando no interior do copo fugindo das afiadas lâminas. No desespero dos olhos da pequena ave reside o sentido do gesto. O final da experiência reside, fatalmente, na vulnerabilidade da vida, no fim do corpo.
Lançado pela Cosac & Naify Edições, ''Vista do Rio'' narra a história de dois amigos de infância, Virgílio e Marco. Após muito tempo sem se verem, reencontram-se no leito de um hospital. Virgílio está internado devido ao agravamento da debilidade de seu corpo causado pelo vírus HIV. Marco está como único acompanhante capaz de ofertar alguma afetividade sem hipocrisia.
O romance, narrado por Marco, alterna a existência dos amigos como seres independentes bem como a intersecção de suas vidas. Diferentes um do outro, funcionam tanto como antagonistas como amigos íntimos, unidos por uma relação em busca do esclarecimento. Frustrações e angústias tornam-se os elementos constantes no decorrer da narrativa.
Um dos detalhes presentes em ''Vista do Rio'' está em Rodrigo Lacerda inserir no romance outros dois personagens não convencionais: a cidade do Rio de Janeiro e um edifício chamado Estrela de Ipanema. O edifício personifica a década de 60 e suas alterações ao longos dos anos representam a transformação do próprio Rio de Janeiro. O lugar onde Virgílio e Marco passaram a infância e a adolescência permanece gravado em suas memórias como tatuagem de dramas e descobertas.
Rodrigo Lacerda, nascido em 1969, integra uma nova geração de autores brasileiros que vem renovando a prosa. Não com experimentações carregadas de radicalidade, mas procurando dentro do milenar ato de narrar histórias de maneira original e sedutora mesmo que pontuadas pela fragmentação. Autor de obras como ''O Mistério do Leão Rampante (Ateliê Editorial, 1995), ''A Dinâmica das Larvas'' (Editora Nova Fronteira, 1996) e ''Tripé'' (Ateliê Editorial, 1999), demonstra estar bem próximo da maturidade narrativa.
Ler ''Vista do Rio'' é penetrar por um ensolarado túnel de frustrações, o recorte das últimas décadas a partir do ponto de vista de um homem desencaixado do senso comum, do imediato e das consideradas normalidades. Sozinho em seu canto, percebe que seu lugar nunca será aquele que se apresenta à sua frente, mas um outro extensivamente oculto. A amizade como fonte de verdade. Onde a vida torna-se um beija-flor preso num liquidificador ligado. E a possível essência se abriga no olho da pequena ave diante de um eterno vôo sustentado pela imagem da morte.
A pasta de sangue ou a putrefação da carne é mais que conhecida, mas a ditadura da felicidade pode ser pior que o próprio fim. Afinal, ''onde está escrito que o papel do homem na terra é ser feliz?''
Serviço:
- Vista do Rio, de Rodrigo Lacerda, Cosac & Naify Edições, 196 páginas, R$ 34,80.


