LEITURA - Sangue burlesco
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Agarrada ao corpo da mãe, a criança chora descontroladamente. O filho berra em desespero. Derrama lágrimas de medo e pavor. Perseguido na rua por estranhos, foi quase espancado sem entender o motivo. Refugiado nos braços da mãe, coloca no choro toda sua agonia.
Procurando dar alguma coragem ao filho, a mãe retira o xale dos ombros e enfia na boca da criança. Aos poucos vai enfiando o tecido boca adentro. Ele precisa aprender a segurar o choro. Precisa demonstrar alguma dignidade diante do medo. Precisa aguentar a situação com coragem. Sufocado, o menino domina a vergonha e engole suas lágrimas.
Essa cena incômoda aparece em "Primeiro Amor", conto de Isaac Bábel (1894 1940). O texto integra "Contos de Odessa", obra do escritor russo que acaba de ser lançado pela editora Penguin. O volume reúne 15 contos ambientados na cidade de Odessa em dois momentos históricos do início do século 20, antes e depois da revolução bolchevique.
Isaac Bábel nasceu em 1894, em Odessa, cidade portuária da Ucrânia às margens do Mar Negro. Na época a região fazia parte do Império Russo. Nascido numa família judia, Bábel viu de perto todo o tipo de conflito e discriminação que os judeus russos viveram na Rússia. As histórias de "Contos de Odessa" retratam a comunidade judaica que habitava a cidade que representava um importante e agitado porto de comércio internacional.
Os personagens judeus retratados por Bábel são ladrões, bandidos, mafiosos, milicianos e falsários. Tudo a partir de um ângulo que mistura tanto o épico quanto o cômico. Espremidos entre a tradição secular e as transformações históricas da Revolução Russa, os personagens caem na praia do burlesco. A sobrevivência é um dos elementos primordiais.
Issac Bábel começou a publicar seus primeiros textos em revistas literárias e caiu nas graças do escritor Maksim Gorki, que se tornou seu padrinho literário. Sua produção não foi extensa, mas ocupa lugar de destaque na literatura russa. Sua obra mais conhecida "O Exército de Cavalaria" (Cosac Naify, 2006), reúne contos que retratam as guerras civis após a Revolução Russa de 1917, em especial a sangrenta batalha contra os rebeldes poloneses.
O escritor abraçou a revolução bolchevique e se tornou funcionário da polícia secreta. Algumas fontes afirmam que discordâncias com os caminhos da revolução o levaram para a prisão de Gulag. Outras fontes dizem que, quando o amigo Nikolai Iejov (diretor da polícia secreta) foi preso, acabou denunciando Bábel por ter dormido com sua esposa. O fato é que após ser preso e torturado, Bábel foi condenado e fuzilado em 1940.
A literatura do escritor segue uma vertente da época, onde os fatos eram determinantes para a narrativa. Além dos fatos, os lugares e os nomes dos personagens deveriam trazer veracidade e proximidade com o real. O teor da ficção deveria ficar a cargo da linguagem e da perspectiva ótica escolhida. Um de seus grandes argumentos era: "Nenhum ferro pode entrar no coração humano de maneira tão gélida como um ponto final colocado no momento exato." Para colocar isso em prática, promoveu quebras bruscas no interior da narrativa com o objetivo de provocar a sensação de saltos.
No conto "O Rei", por exemplo, Isaac Bábel narra o episódio em que um mafioso judeu tenta extorquir outro judeu criador de vacas para ter proteção e segurança. Para coagir o fazendeiro, o mafioso promove uma matança das vacas até que os dois, num mar de sangue, cheguem a um acordo. E no meio desse estranho acordo, o mafioso acaba se apaixonando pela filha da vítima. E a constatação mais simples recai sobre uma frase: "O forro de uma carteira gorda é costurada com lágrimas".

SERVIÇO
"Contos de Odessa"
Autor Isaac Bábel
Editora Penguin
Tradução e apresentação Rubens Figueiredo
Páginas 152
Quanto R$ 24,90 e R$ 16,90 (e-book)
Falou mais alguma coisa sobre nossa semente, mas não escutei mais nada. Estava deitado no chão e as vísceras do pássaro esmigalhado pingavam de minha fronte. Elas escorriam pela bochecha, serpenteando, respingando e me deixando cego. As entranhas tenras do pombo deslizavam pela minha testa e eu fechei o único olho que não estava melado, para não ver o mundo que se estendia na minha frente. Aquele mundo era pequeno e horroroso. Havia uma pedrinha diante dos meus olhos, uma pedrinha entalhada, como a cara de uma velha de papada grande, um pedaço de cordão estava caído não muito longe, e também um bolo de penas, que ainda respirava. Meu mundo era pequeno e horroroso. Fechei os olhos para não vê-lo e me apertei de encontro à terra, que se estendia embaixo de mim numa nudez tranquilizadora. Aquela terra pisoteada não tinha nada de parecido com nossa vida e com a espera dos exames em nossa vida. Pela terra, em algum lugar distante, a desgraça vinha montada num cavalo grande, mas o barulho dos cascos ficou franco, sumiu, e o silêncio, o silêncio amargo que às vezes cai sobre as crianças na infelicidade, de repente destruiu a fronteira entre meu corpo e a terra, que não se movia para nenhum lugar. Andei por uma rua desconhecida, atulhada de caixinhas brancas, caminhava com meu ornamento de penas ensanguentadas, sozinho no meio de calçadas limpas e varridas, como num domingo, e chorava tão amargo, tão pleno, tão feliz como nunca mais chorei em toda minha vida.


