Dostoiévski: os episódios mais interessantes de ‘O Jogador’ residem nas descrições do processo psicológico que acontece na cabeça de um apostador diante da roleta
Dostoiévski: os episódios mais interessantes de ‘O Jogador’ residem nas descrições do processo psicológico que acontece na cabeça de um apostador diante da roleta | Foto: Arquivo Público



1866 foi um ano complicado para Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881). O escritor russo estava matando cachorro a grito. Tinha montanhas de dívidas de jogo nas costas. Jogador compulsivo, havia apostado altos valores que não tinha nos bolsos.
Para levantar uma grana da maneira mais rápida possível, Dostoiévski assinou um contrato em que se comprometia a entregar ao editor um romance de 300 páginas em 30 dias. Se não entregasse os originais da obra em 30 dias, os direitos autorais de todos seus livros passariam a ser do editor por um período de 10 anos.
O desespero do escritor parece evidente ao assinar um contrato draconiano desse tipo. Mas Dostoiévski arregaçou as mangas e, para conseguir escrever um romance em tão pouco tempo, contratou uma jovem estenografa, Anna Snítkina. Após auxiliar na tarefa, Anna se tornaria esposa do escritor.
Dostoiévski conseguiu concluir "O Jogador" no prazo estipulado, mas quando foi entregar os originais, no último dia, não encontrou o editor. O sujeito havia desaparecido justamente para que o escritor não cumprir o contrato. A solução encontrada por Dostoiévski foi levar os manuscritos até uma delegacia de polícia e realizar a entrega às autoridades registrando a data e o horário de entrega.
Essa história melodramática não integra apenas o contexto em que a obra foi escrita, mas na própria narrativa de "O Jogador". A obra acaba de ganhar uma nova edição brasileira, com nova tradução diretamente do russo, lançado pela editora Penguin.
"O Jogador" traz o relato de Aleksei, um jovem professor russo de origem humilde que passa uma temporada numa estação de águas da Alemanha ministrando aulas aos filhos de um nobre militar russo. Com vários cassinos, o lugar atrai ricos de toda a Europa dispostos a confiar na sorte e desconfiar do azar nas roletas e jogos de cartas.
Na narrativa melodramática de Dostoiévski tudo está entremeado pelo dinheiro. Não só a riqueza e a miséria nas cores e nos números das roletas, mas também surgem um amplo leque de personagens que fazem do dinheiro o termômetro de suas vidas. Aristocratas falidos esperando a morte de parentes para abocanhar heranças. Agiotas oferecendo vantagens ilusórias no futuro. Malandros assediando incautos. Concubinas tramando golpes do baú. Enfim, uma coleção de intrigas onde a grana aparece como protagonista.
Mas também há amor na trama. Aleksei se apaixona pela filha do militar e aposta de tudo na aventura de seduzi-la. Acreditando que a riqueza pode conquistá-la, entra de cabeça no jogo vivendo experiências que o colocam no céu em alguns momentos, e igualmente no inferno em outros. Mas a moça é dura na queda e cria uma série de subterfúgios. A dubiedade presente entre a sorte e o azar, presente na roleta e nas cartas, se revela correspondente no jogo amoroso.
Os episódios mais interessantes do romance residem nas descrições que Dostoiévski realiza do processo psicológico que acontece na cabeça de um apostador diante da roleta e dos dados. Não é a escolha certa e adequada que determina o resulto de riqueza ou pobreza, mas o mero acaso. Colocar a vida nas mãos do acaso pode parecer algo insano. E esse parecer ser o grande sentido.

Serviço:
"O Jogador"
Autor – Fiódor Dostoiévski
Editora – Penguin
Tradução, apresentação e notas – Rubens Figueiredo
Páginas – 216
Quanto – R$ 29,90

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Roleta russa
| Foto: Reprodução
Fragmento Mas eu, por algum estranho capricho, depois de notar que o vermelho tinha saído sete vezes seguidas, insisti nele, de propósito. Estou convencido de que, metade do motivo, foi o amor-próprio; senti vontade de deslumbrar os espectadores com um risco louco e – ah, que sensação estranha – lembro nitidamente que, de fato, sem nenhuma provocação do amor-próprio, uma terrível sede de risco me dominou de repente. Pode ser que, ao atravessar tantas sensações, a alma, em vez de saciar-se com elas, apenas se irrite e acabe por exigir ainda mais sensações cada vez mais fortes, até o esgotamento definitivo. E é verdade, não estou mentindo, se as regras do jogo permitissem apostar cinquenta mil de uma só vez, eu apostaria, com toda certeza. Em volta, gritavam que aquilo era loucura, que o vermelho já havia saído catorze vezes! (Fragmento de "O Jogador", de Fiódor Dostoiévski)
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