LEITURA - Riscos do velho vinil
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Uma coisa fica evidente em "Barreira", primeiro romance do contista gaúcho Amilcar Bettega: literatura é linguagem. A narrativa não estaria empenhada em contar histórias. Estaria empenhada em narrar linguagens.
Após publicar três volumes de contos - "O Vôo da Trapezista" (1994), "Deixe o Quanto Como Está" (2002) e "Os Lados do Círculo" (2004) Amilcar Bettega entra de cabeça no gênero romance preservando as mesmas características de seus textos curtos.
O leitor que tiver "Barreira" nas mãos não vai encontrar um romance linear com começo, meio e fim. Vai entrar em contato com uma narrativa que reproduz a mesma atuação de um velho vinil riscado. As músicas estão lá, mas não há como ouvi-las. Os riscos ocultam a música, pulam de um lado para outro entre repetições minimalistas grávidas de silêncio.
Lançada pela Companhia das Letras, a obra é formada por três vozes seguindo a tendência polifônica da literatura contemporânea. Vozes que não saem da boca das personagens. Saem de suas mentes angustiadas entre o passado e o presente.
Uma das vozes pertence a um imigrante turco que deixou sua cidade natal, Istambul, aos seis anos de idade, para se fixar com a família no Rio Grande do Sul. A segunda voz é de Fátima, fotógrafa e filha do imigrante turco que resolve conhecer a cidade natal do pai. Em Istambul, a moça passa os dias tirando fotos de maneira aleatória na tentativa de entender as raízes do pai.
Pai e filha marcam um encontro em Istambul na tentativa do pai retornar à sua cidade natal após décadas em solo brasileiro. O fato é que pai e filha estão na mesma Istambul e não conseguem se encontrar. O pai vive dualidade de não reconhecer a cidade do passado de sua infância, e igualmente não reconhece a cidade do presente. A filha vive a descoberta de que precisa inventar uma Istambul para compreender a si mesma além da memória paterna.
A terceira voz é de um escritor de guias turísticos que está em Istambul para escrever o guia da cidade. Ele é o único ponto de ligação entre pai e filha. O intermediário de um possível encontro que nunca acontece.
Em "Barreira", Amilcar Bettega satura o espaço físico da cidade. Utiliza a descrição espacial para falar do tempo. O interesse da narrativa está em tratar do abismo presente no tempo entre a memória e a realidade.
Nascido em São Gabriel em 1964, Bettega antes de entrar na literatura era um engenheiro civil que atuava em canteiros de obras de edifícios. A literatura alterou sua vida. Seu terceiro livro de contos "Os Lados do Círculo" ganhou o prêmio Portugal Telecom de 2005. Atualmente vive entre Lisboa e Paris.
"Barreira" é um romance ousado e corajoso. Não há nada onde o leitor pode se agarrar. As coisas que precisam ser ditas numa narrativa tradicional simplesmente não existem na narrativa criada pelo autor. Trata-se de um romance que exige que o leitor faça um salto sem rede na linguagem proposta. Não há meio termo. Ou realiza o salto ou está fadado a experimentar uma frustrante experiência de leitura.
Numa narrativa em que nada é esclarecido, o romance aponta para a crescente desterritorialização vivida no mundo globalizado. E que a possível reterritorialização não passaria mais pelos espaços físicos, mas pela abstrata teia do tempo. "Barreira" se assemelha a uma cobra mordendo o próprio rabo. Não há começo, não há fim. Apenas o estar.
Serviço:
"Barreira"
Autor Amilcar Bettega
Editora Companhia das Letras
Páginas 262
Quanto R$ 39


