Uma coisa fica evidente em "Barreira", primeiro romance do contista gaúcho Amilcar Bettega: literatura é linguagem. A narrativa não estaria empenhada em contar histórias. Estaria empenhada em narrar linguagens.
Após publicar três volumes de contos - "O Vôo da Trapezista" (1994), "Deixe o Quanto Como Está" (2002) e "Os Lados do Círculo" (2004) – Amilcar Bettega entra de cabeça no gênero romance preservando as mesmas características de seus textos curtos.
O leitor que tiver "Barreira" nas mãos não vai encontrar um romance linear com começo, meio e fim. Vai entrar em contato com uma narrativa que reproduz a mesma atuação de um velho vinil riscado. As músicas estão lá, mas não há como ouvi-las. Os riscos ocultam a música, pulam de um lado para outro entre repetições minimalistas grávidas de silêncio.
Lançada pela Companhia das Letras, a obra é formada por três vozes seguindo a tendência polifônica da literatura contemporânea. Vozes que não saem da boca das personagens. Saem de suas mentes angustiadas entre o passado e o presente.
Uma das vozes pertence a um imigrante turco que deixou sua cidade natal, Istambul, aos seis anos de idade, para se fixar com a família no Rio Grande do Sul. A segunda voz é de Fátima, fotógrafa e filha do imigrante turco que resolve conhecer a cidade natal do pai. Em Istambul, a moça passa os dias tirando fotos de maneira aleatória na tentativa de entender as raízes do pai.
Pai e filha marcam um encontro em Istambul na tentativa do pai retornar à sua cidade natal após décadas em solo brasileiro. O fato é que pai e filha estão na mesma Istambul e não conseguem se encontrar. O pai vive dualidade de não reconhecer a cidade do passado de sua infância, e igualmente não reconhece a cidade do presente. A filha vive a descoberta de que precisa inventar uma Istambul para compreender a si mesma além da memória paterna.
A terceira voz é de um escritor de guias turísticos que está em Istambul para escrever o guia da cidade. Ele é o único ponto de ligação entre pai e filha. O intermediário de um possível encontro que nunca acontece.
Em "Barreira", Amilcar Bettega satura o espaço físico da cidade. Utiliza a descrição espacial para falar do tempo. O interesse da narrativa está em tratar do abismo presente no tempo entre a memória e a realidade.
Nascido em São Gabriel em 1964, Bettega antes de entrar na literatura era um engenheiro civil que atuava em canteiros de obras de edifícios. A literatura alterou sua vida. Seu terceiro livro de contos "Os Lados do Círculo" ganhou o prêmio Portugal Telecom de 2005. Atualmente vive entre Lisboa e Paris.
"Barreira" é um romance ousado e corajoso. Não há nada onde o leitor pode se agarrar. As coisas que precisam ser ditas numa narrativa tradicional simplesmente não existem na narrativa criada pelo autor. Trata-se de um romance que exige que o leitor faça um salto sem rede na linguagem proposta. Não há meio termo. Ou realiza o salto ou está fadado a experimentar uma frustrante experiência de leitura.
Numa narrativa em que nada é esclarecido, o romance aponta para a crescente desterritorialização vivida no mundo globalizado. E que a possível reterritorialização não passaria mais pelos espaços físicos, mas pela abstrata teia do tempo. "Barreira" se assemelha a uma cobra mordendo o próprio rabo. Não há começo, não há fim. Apenas o estar.

Serviço:
"Barreira"
Autor – Amilcar Bettega
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 262
Quanto – R$ 39

(...) onde as distâncias físicas ou temporais são sempre grandes demais para nos vincular a algo que não era ali ao alcance dos sentidos, e que ele via e podia sentir não estava no que era contado, mas na voz que contava e em sua capacidade para avançar sempre e sempre como se tomada por uma engenharia complexa cujo movimento gerava o combustível necessário para a manutenção do próprio movimento, para a sua extensão, para o seu prolongamento, um pouco como o movimento do braço de Fátima que eu via agora, suspenso e fluido, ampliando o espaço para muito além de sua extremidade física, dotando-se de Uma força que a partir de determinado momento parece se desvincular do impulso inicial, deixa de ser esforço ou intenção e torna-se autônoma, entregue ao simples desejo de continuar (o gesto), de continuar a falar através do gesto (veja), de continuar a contar (a voz) e a empilhar detalhes em cima de detalhes numa urgência que o discurso caudaloso tornava evidente, como se ele (pai) soubesse que um dia tudo aquilo iria desaparecer e como se eu (filho) tivesse que aprender de uma só vez (...) (Fragmento de "Barreira" de Amilcar Bettega)
mockup