Existem aqueles momentos em que tudo parece ficar claro diante dos olhos. Aquilo que durante anos parecia nebuloso e oculto se revela inesperadamente num breve instante. Num segundo, a compreensão das coisas atinge a máxima limpidez.
Esses instantes reveladores, chamados pelos antigos gregos de epifanias, podem acontecer tanto na esfera divina como no cotidiano humano. Na literatura norte-americana, o escritor John Cheever foi um mestre em apresentar epifanias cotidianas em seus contos.
''28 Contos de John Cheever'', que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras, é uma ótima síntese do trabalho do escritor como um dos grandes contistas norte-americanos do século 20. Em suas histórias, as epifanias revelam o vazio e a alienação de figuras e famílias de classe média. Revelações que invariavelmente trazem um sabor trágico de vidas limitadas por futilidades e imbecilidades.
O conto ''O Grande Rádio'', por exemplo, traz a história de uma família exemplar que, a partir do dia que compra um novo rádio, assiste a casa ruir. O aparelho, inexplicavelmente, começa captar o que acontece em cada apartamento do prédio. A cada estação, um apartamento, uma família.
A esposa, que passa o dia cuidando da casa e dos filhos, entra de cabeça na aventura secreta de ouvir a intimidades dos vizinhos. E o painel a que ela tem acesso é de tal forma infeliz e problemático que só lhe resta uma violenta epifania para curar seu pânico. Justamente a revelação de que sua vida, longe da fachada, é tão miserável quanto a de todos seus vizinhos aparentemente felizes.
O conto ''O Nadador'', considerado uma das obras primas de Cheever, narra a história de um sujeito que, passando o domingo na beira da piscina na casa de amigos, decide volta para a casa nadando. Mentalmente ele traça um caminho pelo bairro onde pode passar pelas piscinas das residências e chegar em sua residência via água.
Conhecido de toda vizinhança, ele segue de piscina em piscina, atravessa cada uma delas. Encontra várias festas e churrascos pelo caminho e segue tomando uns tragos e nadando até chegar a sua casa, cansado, esgotado e levemente bêbado. Então percebe que a realidade não é aquela que está em seus pensamentos. É completamente outra e ele se esqueceu dela.
A biografia de John Cheever é curiosamente dividida em dois momentos. O primeiro diz respeito as informação sobre sua existência enquanto ainda estava vivo. O segundo diz respeito às informações que apareceram após sua morte ocorrida em 1982.
Até morrer, Cheever era o exemplo de bom sujeito. Arrimo de família responsável, marido fiel, pai dedicado, enfim, um cara que levava uma vida exemplar sempre na linha. Após sua morte, com a descoberta de seus diários, a coisa mudou de figura. Sua própria filha se encarregou se escrever a primeira biografia de Cheever e a publicação de fragmentos dos diários.
As informações trazidas à tona apontavam para um homem oposto àquele que ele apresentava socialmente. Marido infiel, pai irresponsável, homossexual, alcoólatra inveterado, propenso a violências domésticas e outras coisas mais. Teria criado uma fachada para si mesmo muito parecida com aquela que criava para os personagens de seus contos e romances.
A narrativa desenvolvida por Cheever em seus escritos não procura romper com nenhum padrão de linguagem. Seu interesse está em narrar uma história a partir das observações mais imediatas e suas camadas ocultas. Sua narrativa foi considerada por alguns pesquisadores como ''ingênua''. O fato é que, ao utilizar ingenuidades e simplicidades como instrumento narrativo, sua literatura transparece algo extremamente sutil. Algo que mostra que o vazio é tão óbvio que na maioria das vezes não é percebido. Passa batido. Por todos. Por tudo.
Serviço:
- 28 Contos de John Cheever
Autor - John Cheever
Editora - Companhia das Letras
Seleção e prefácio - Mario Sergio Conti
Tradução - Jorio Dauster e Daniel Galera
Páginas - 360
Quanto - R$ 41

Vale para todos nós, por melhores que sejamos: se um observador nos flagrar embarcando no trem da estação; se ele puder dar uma boa olhada em nosso rosto quando a ansiedade já o tiver despido der todo autodomínio; se puder ouvir as palavras duras ou carinhosas que diremos caso estejamos com a família, ou se reparar no modo como botamos a mala no bagageiro, verificamos a localização da carteira ou do molho de chaves e limpamos o suor da nuca; se souber julgar com sabedoria a pompa, o acanhamento ou a tristeza com que nos acomodamos no lugar, ele saberá de nossas vidas muito mais do que gostaríamos de compartilhar.
(Fragmento do conto ''O Camponês de Verão'' que integra ''28 Contos de John Cheever'')

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