LEITURA - Retrato do ficcionista quando jovem
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A grande maioria dos escritores faz questão de esquecer no fundo da gaveta suas primeiras experiências literárias. Alguns chegam até renegar essa produção, rezando por um repentino incêndio dos papéis. Miguel Sanches Neto optou por realizar caminho inverso, revelar aos leitores seus primeiros textos em prosa.
''Primeiros Contos'', lançado pela editora curitibana Arte & Letra, reúne 23 contos criados por Miguel Sanches Neto ao longo das décadas de 80 e 90, quando passou a se dedicar à literatura em tempo integral. Com uma abordagem mais sombria daquela presente em sua produção atual, volume é o painel de um jovem escritor procurando o caminho das palavras e suas bifurcações.
Miguel Sanches Netos nasceu em Bela Vista do Paraíso, em 1965. Viveu a infância em Peabiru e atualmente reside em Ponta Grossa, onde atua como professor de literatura brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Autor de ''Hóspede Secreto'', ''Herdando uma Biblioteca'', ''Chove Sobre Minha Infância'', ''Um Amor Anarquista'' e ''A Primeira Mulher'', entre outras obras, é hoje uma das principais vozes da literatura paranaense.
De maneira geral os escritores tendem a renegar suas primeiras experiências literárias. Com ''Primeiros Contos'' você realiza caminho inverso. Existe algum motivo para isso?
Negar o que escrevemos é algo normal. Muita coisa que fiz ficou pelo caminho, e tinha que ser assim. Descarto muito material, não poderia ser de outra forma, já que escrevo de maneira contínua. E é justamente por ter uma produção mais intensa que textos que julgo ter qualidade vão ficando esquecido. Há também um outro fator importante para eu estar publicando só agora estes contos, é que naquela época eu não tinha editora, as oportunidades de publicar um volume inexistiam. Hoje, as portas das editoras estão abertas para mim, e isso faz com que eu alimente o projeto de recuperar estas produções matinais.
Quando você escreveu os textos que integram ''Primeiros Contos'' já havia o desejo de se tornar escritor?
Eu já me sentia escritor. Era ainda uma condição secreta, quase ninguém, fora de meu círculo familiar, me via assim. Mas eu me via. Sempre me dediquei de forma plena à literatura, isso a partir de meus 17 ou 18 anos. Mas eu fazia apenas poesia. Começa na década de 90 o meu projeto consciente de ser um ficcionista. Estes contos são as raízes deste projeto.
O que acontece na cabeça de um jovem quando ele descobre que pode produzir literatura? Qual a sua experiência nesse sentido?
No meu caso, foi uma descoberta de que o universo infantil continua em plena atividade no adulto. Voltamos a ter o poder de imaginar, de ficcionalizar, de construir mundos alternativos, de introduzir versões sobre fatos. Algo tão comum na infância, mas que o adulto em nós vai matando. Ouço uma frase e já crio na minha mente uma história, que não tem mais nada a ver com aquela frase. Descobrir-se com este poder nos dá a lucidez pelo jogo lúdico com o mundo. É uma experiência de conhecimento da relatividade de tudo.
Qual mapa você traça do desenvolvimento de sua literatura dos primeiros textos e sua produção mais recente?
A primeira marca destes contos é a extensão deles. São contos curtos. Não só porque eu quisesse fazê-los assim, mas principalmente porque eu não sabia escrever textos mais longos. O escritor estava ainda iniciando, não tinha intimidade com estruturas mais demoradas. Hoje, meus textos de ficção aumentaram, tenho dificuldade em escrever pouco sobre um tema. Outro elemento é a presença do fantástico, do inusitado. Eu tinha uma preocupação de pegar uma cena que fosse bem impactante, não sabia ainda trabalhar com sutilezas, com a arte do não-dizer. Isso faz com que os contos sejam bem matizados e invistam em personagens esdrúxulos. E a outra diferença foi notada por minha mulher. Há uma solidão meio suicida, extremamente dramática, nestes contos. Com o tempo, fui aprendendo a ver com mais tranquilidade a condição humana. Hoje, tenho uma percepção de que não existe solidão, estamos sempre em contato com o mundo, com as pessoas queridas, mesmo quando elas já não existem mais.
SERVIÇO
- Primeiros Contos
Autor - Miguel Sanches Neto
Editora - Arte & Letra (www.arteeletra.com.br)
Páginas - 118
Quanto - R$ 25


