''Se não fosse muito esquisito comparar cidades com mulheres, eu diria que Recife tem o físico, a psicologia, a graça arisca e seca, reservada e difícil de certas mulheres magras, morenas e tímidas. Porque não repararam que há cidades que são o contrário disso? Cidades gordas, namoradeiras, gozadonas? O Rio, por exemplo. Belém do Pará. São Luis do Maranhão são cidades gordas. A Bahia é gordíssima. São Paulo é enxuta. Mas Recife e Fortaleza são magras.''
O texto acima é um exemplo da maneira peculiar que o poeta Manuel Bandeira (1886 - 1968) encarava as cidades brasileiras. Mais conhecido por sua obra em versos, Bandeira também foi autor de uma significativa obra em prosa basicamente constituída de crônicas.
Publicadas originalmente em jornais e revistas de várias partes do país, suas crônicas foram reunidas em forma de livro em 1937 com o título ''Crônicas da Província do Brasil''. Selecionadas pelo próprio autor, as crônicas, escritas entre o final da década de 20 e meados da década de 30, procuravam traçar um retrato da cultura brasileira de maneira coloquial.
Uma segunda edição da obra surgiu em 1958 e depois não recebeu nenhuma reedição. ''Crônicas da Província do Brasil'' volta agora às livrarias com uma nova e bem cuidada edição lançada pela Editora Cosac Naify. Organizada por Julio CastaÀon Guimarães, a obra traz uma série de notas que situam o contexto em que cada crônica foi originalmente escrita e publicada.
Alguns dos textos foram escritos pouco antes da publicação de duas obras referenciais da literatura brasileira: ''Casa-Grande & Senzala'', de Gilberto Freyre, e ''Raízes do Brasil'', de Sérgio Buarque de Holanda. Esses textos deixam transparecer que Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que estava atento à ''redescoberta'' da cultura brasileira realizada por modernista com Mário de Andrade, também estava atento às questões sobre a brasilidade discutidas por acadêmicos.
Os temas trabalhados por Bandeira em ''Crônicas da Província do Brasil'', mesmo focalizando aspectos culturais do país, são amplos e variados. Falam sobre a arquitetura colonial das cidades mineiras, sobre as igrejas baianas, festas populares, boemia carioca e personagens do samba. Também abordam a autores como Drummond, Frederico Schmidt, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida.
Os textos de ''Crônicas de Província do Brasil'' realizam um passeios pelas cores do Brasil da maneira mais ampla possível. Alguns são relatos daquilo que o autor presenciou em suas andanças, outros são investigações sobre a literatura que registram as mais marcantes características da cultura, tanto erudita como popular, do país.
Escritos numa época em que a crônica estava se constituindo definitivamente como gênero literário dentro da literatura brasileira, os textos de Manuel Bandeira fazem parte dessa história. Uma história onde o cotidiano senta numa cadeira colocada na calçada e conversa com todas as pessoas que passam na rua.

Serviço:
- Livro ''Crônicas da Província do Brasil'', de Manuel Bandeira. Editora Cosac Naify, organização e prefácio de Julio CastaÀon Guimarães, 320 páginas, capa dura em três versões, R$ 48,00.

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