LEITURA - Redenção no gelo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de julho de 2010
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A história é simples, quase água com açúcar. Certo dia um príncipe é convocado a atuar como jurado de um tribunal num caso de roubo e assassinato. A acusação recai nas costas de uma jovem prostituta, acusada de envenenar um sujeito para roubar-lhe uma pequena fortuna.
Durante o julgamento, o príncipe reconhece a ré como sendo a empregada de uma de suas tias. Uma moça que, anos antes, ele havia seduzido, engravidado e abandonado na sarjeta sem o mínimo remorso.
Quando a ficha cai, o príncipe sente-se culpado pela desgraça vivida pela garota e, numa súbita tomada de consciência, decide reparar seu erro. Decide livrá-la da prisão e casar-se com ela. Decide apaziguar sua consciência e elevar sua alma.
A história pode parecer próxima de uma novela mexicana, mas é um dos clássicos do escritor russo Liev Tolstói. Baseado em fatos reais, ''Ressurreição'' (1899) foi o romance escrito após o sucesso de ''Guerra e Paz'' (1869) e ''Ana Karênina'' (1877), numa época em que o escritor russo havia se convertido ao cristianismo.
''Ressurreição'' pode ser considerada a obra mais religiosa de Tolstói. A idéia de redenção da alma humana permeia toda a narrativa como uma chama reveladora. Ao mesmo tempo, é o romance onde o escritor faz seu mais feroz ataque às instituições do Estado, como tribunais, governos, exércitos e sistemas carcerários. Nas mãos do escritor russo, o enredo aparentemente piegas ganha um conteúdo devastador.
A obra recebeu várias edições brasileiras ao longo das décadas, todas com traduções a partir de versões em francês e espanhol. Agora, pelas mãos da editora Cosac Naify, finalmente ganha sua primeira tradução realizada diretamente da língua russa, feita pelo escritor e tradutor carioca Rubens Figueiredo.
Tolstói teve a idéia de escrever o romance a partir de um fato real, ocorrido em 1887 e apresentado a ele por um amigo advogado. A partir desse episódio, criou o personagem Nekhliúdov, o príncipe arrependido que abre mão de tudo, inclusive de sua riqueza, para salvar a jovem Máslova de seis anos de trabalhos forçados na Sibéria e juntamente salvar sua própria alma.
Em sua jornada em tornar-se um novo homem, reparar seus erros e abandonar a vida fútil, Nekhliúdov entra em contato com um mundo que desconhecia: a crueldade do sistema penitenciário e os labirintos escorregadios do judiciário. Nesse mundo, descobre que uma boa parte dos presidiários não são criminosos sanguinários. São apenas pessoas simples e honestas abatidas por injustiças, vítimas de equívocos e trapaças. Também descobre que os tribunais judiciários estão repletos de salafrários engomados interessados apenas em proteger os interesses das classes dominantes.
Em ''Ressurreição'', Liev Tolstói (1828 - 1910) escancara seus princípios morais e religiosos. Invertendo a lógica do senso comum, revela onde os homens realmente imersos em humanidade podem ser encontrados. Eles não poderiam ser encontrados entre os governantes, entre os juízes, entre os bispos ou entre os policiais. Eles poderiam ser encontrados apenas entre as pessoas mais simples, figuras escondidas discretamente no meio da multidão.
Serviço:
Ressurreição
Autor - Liev Tolstói
Editora - Cosac Naify
Tradução e apresentação - Rubens Figueiredo
Quanto - R$ 79 (432 págs. com capa dura)
Ao conhecer de perto as prisões e as paradas de viagem rumo ao local de deportação, Nekhliúdov se deu conta que todos aqueles vícios que se desenvolviam entre os prisioneiros: a bebida, o jogo, a crueldade e todos os terríveis crimes cometidos por detentos, e até a antropofagia - não eram acidentes, nem fenômeno de uma degeneração, de um tipo de criminoso, de uma monstruosidade, como interpretavam os sábios obtusos para agradar ao governo, mais sim uma consequência inevitável do erro incompreensível segundo o qual umas pessoas devem castigar outras. Nekhliúdov via que a antropofagia não havia começado na taiga, mas sim nos ministérios, nas comissões e nos departamentos e apenas se concluía na taiga; que todos os juízes e funcionários, desde o oficial de justiça até o ministro, nada tinham a ver com a justiça ou com o bem do povo, de que falavam, mas sim precisavam pura e simplesmente de rubros que lhes pagavam para fazer tudo aquilo que gerava tal degradação e sofrimento. Isso era completamente óbvio. ''Então, será que se faz tudo isso só por causa de um mal-entendido? Não haveria um meio de garantir a todos esses funcionários o seu salário, e até lhes dar um prêmio, só para não fazer tudo aquilo que fazem?'', pensava Nekhliúdov.
(Fragmento de ''Ressurreição'' de Liev Tolstói)


