LEITURA - Redemoinho de punhais


Marcos LosnakEspecial para a Folha2
Marcos LosnakEspecial para a Folha2

Após a morte de Ariano Suassuna ocorrida em julho de 2014, era esperado o aparecimento de escritos inéditos e obras póstumas deixadas pelo escritor paraibano. Os admiradores da literatura de Suassuna não precisaram esperar muito tempo para terem esses textos nas mãos; a editora Iluminuras está lançando "Romance do Bordado e da Pantera Negra", obra de Ariano Suassuna e Raimundo Carrero acompanhada de xilogravuras de Marcelo Soares.
"Romance do Bordado e da Pantera Negra" possui uma história curiosa que começa em 1970, quando Ariano Suassuna articulava o nascimento do Movimento Armorial na cidade de Recife, Pernambuco. Raimundo Carrero, que integrava o Movimento na época, escreveu um conto intitulado "Romance do Bordado e da Pantera Negra" em que colocava em prática os conceitos do Armorial. A partir do conto, Suassuna escreveu um cordel com o mesmo enredo e mesmo título.
Os dois textos foram transformados num folheto que deveria ser lançado durante concerto "Três Séculos de Música Nordestina: do Barroco ao Armorial" na Igreja de São Pedro dos Clérigos de Recife. Mas uma inesperada enchente invadiu o lugar onde os folhetos estavam guardados destruindo tudo. Somente mais de quatro décadas depois o agente literário francês Stéphane Chao encontrou uma cópia perdida do folheto e resgatou a obra.
Em "Romance do Bordado e da Pantera Negra" podem ser encontrado os pilares do nascimento do Movimento Armorial. No prefácio do livro, Carrero procura esclarecer o equívoco de considerar o Armorial uma extensão do Regionalismo: "O Movimento, na verdade, proclamava a realização de uma arte erudita com base nas manifestações populares, sobretudo, mas não exclusivamente, nordestinas. De forma que no romance ou no conto, por exemplo, essas manifestações culturais fossem, como são, metáforas, simbólicas ou imagéticas, e não um documento ou ‘cópia’ sociológica e antropológica. A questão é estética. O Folclore, assim, aparece como representativo da condição humana e não como documento de uma realidade."
Nas duas versões, na de Carrero e na de Suassuna, a obra narra a história da libertação do diabo, vulgo pata fendida, o cospe fogo. Tudo começa quando Conceição, um mulher que lava roupa na beira do rio, encontra uma misteriosa garrafa lacrada. Levada pela curiosidade, a mulher abre o objeto e liberta o demônio preso em seus interior. Em agradecimento, o monstro oferece à mulher a realização de um desejo.
Mas juntamente no momento em que ocorre a negociação, aparece Elesbão, vaqueiro e marido de Conceição. Sem entender por que sua esposa conversa com um estranho suspeito, arrasta Conceição para casa. E assim o demo começa destruir, ou cortar em pedaços, tudo que encontra pela frente.
No momento em que o demônio invade a casa de Conceição para arrancar suas entranhas, ela está bordando a figura de um dragão numa toalha. Num instante mágico, o dragão pula do tecido para lutar contra o diabo e proteger sua criadora. Na batalha, um redemoinho de punhais invade o breu da noite.
Amigos ao longo de décadas, Suassuna e Carrero produziram uma única obra em conjunto, justamente "Romance do Bordado e da Pantera Negra". Nascido na cidade de Salgueiros, sertão de Pernambuco, em 1947, Raimundo Carrero é autor de 14 romances. Recebeu prêmios como Jabuti, São Paulo e Machado de Assis. Nascido na cidade de Nossa Senhora das Neves (atualmente chamada de João Pessoa, capital da Paraíba), em 1927, Ariano Suassuna foi um dos grandes escritores brasileiros do século, autor de clássicos como "Auto da Compadecida" e "A Pedra do Reino".

Serviço:
"Romance do Bordado e da Pantera Negra"
Autor – Raimundo Carrero e Ariano Suassuna
Ilustrações – Marcelo Soares
Editora – Iluminuras
Páginas – 64
Quanto – R$ 29

Simão Bugre, o da cara na pedra, ouve o tropel maluco dos cavalos fantasmas, selvagens, correndo em busca de túmulos. As Crinas balançam-se, enxotam o vento. São cavalos de guerreiros mortos em emboscadas. Sabe-se que Visageiro, o cavalo ruço, batalhador de primeira, desembesta-se nas terras Santas dos Umãs, toda meia-noite. Simão Bugre tem conhecimento disso. Deixa o sorriso se abrir na cara.
O cavaleiro proprietário do cavalo ruço Visageiro, vaquejador de nome conhecido como Elesbão, caiu macio na ponta do punhal de Simão Bugre, por ordem e por destino marcado. Por isso, o sorrido é agora tão largo, tão aberto. E esquece – num instante – a presa que o espera. Senta-se gargalhando, os olhos feitos faíscas. Vê, na mente, como se fosse naquele dia.

(Fragmento de "Romance do Bordado e da Pantera Negra", de Raimundo Carrero)






Mas, na Serra dos Umãs,
está Simão Bugre, o Cru,
o Pinhal aluminado
seu veneno de Urutu
e as cartucheiras cruzadas
em cima do Dorso nu.

Rasga a pele, o próprio Peito,
com a sua Unha afiada.
Pisa as coroas-de-frade,
é uma Fera acuada!
Dás um coice no Destino,
leva o Vento a pancada!

O mato velho se esconde
na noite, a negra Pantera.
O punhal é um espelho
e Simão Bugre é a Fera.
Vai emboscar Elesbão,
vai matar Onça de espera!

O Bugre, o Cara de Pedra,
ouve o Tropel de Cavalos.
São Cavaleiros perdidos,
são Cavalos assombrados,
correndo em busca das tumbas
de onde estão extraviados.

(Fragmento de "Romance do Bordado e da Pantera Negra", de Ariano Suassuna)

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