''Todas as ruas apresentavam os aspectos de um campo de batalha, cobertas de destroços: postes quebrados, paralelepípedos revolvidos, restos de veículos incendiados, vidros espatifados, latas, madeiras Não trafegava um único veículo em toda cidade As ruas estavam cheias de manchas de sangue ''
O texto acima descreve o Rio de Janeiro Não a cidade dos dias atuais, mas a cidade de 100 anos atrás Trata-se de uma reportagem publicada em 1904 no Jornal do Comércio Um texto que descreve a revolta popular que passaria a ser conhecida historicamente como Revolta da Vacina
O assunto virou tema de um dos livros mais cultuados do historiador Nicolau Sevcenko, ''A Revolta da Vacina: Mentes Insanas em Corpos Rebeldes'' Publicado originalmente em 1984 pela editora Brasiliense, a obra se tornou leitura obrigatória nas universidades do país Em 1993 ganhou uma nova edição recheada de informações iconográficas voltada aos estudantes do ensino médio
''A Revolta da Vacina'' se tornou, segundo pesquisa da Universidade de São Paulo, um dos ensaios mais citados em trabalhos acadêmicos Um pouco pelo modo indignado com que foi escrito, mais ainda pela síntese de informações e pela nova abordagem apresentada da Revolta da Vacina, um dos episódios menos compreendidos da Primeira República A obra acaba de ganhar uma nova edição, lançada pela editora Cosac Naify
A insurreição tem início após o governo de o presidente Rodrigues Alves instituir a vacinação obrigatória contra a varíola na capital federal numa campanha coordenada pelo sanitarista Oswaldo Cruz O estopim foi o fato da população não aceitar que enfermeiros entrassem em suas casas, abaixassem as saias de suas mulheres, mães e filhas, deixassem suas bundas desnudas, para espetar uma seringa
O distanciamento entre os anseios da população e as ações dos governantes teria acendido o pavio da pólvora A cidade se transformou num campo de batalha Os mortos não foram contabilizados Não há registros sobre eles, estivam-se centenas Os rebeldes sobreviventes foram deportados para o Acre, abandonados na selva amazônica
Para Nicolau Sevcenko, apesar de essa tese ser a mais conhecida e quase folclórica, os verdadeiros motivos da revolta foram outros A obrigatoriedade da vacina foi apenas o estopim O real motivo teria sido o processo de reestruturação urbanística do centro do Rio de Janeiro colocado em prática pelo governo
Essa modernização urbanística seguia os moldes europeus de tornar as cidades mais arejadas e higienizadas Nessa época, o centro do Rio de Janeiro estava entupido de ex-escravos e imigrantes de outros países Todos vivendo de maneira precária em cortiços adaptados nos velhos casarões coloniais
Toda essa população foi expulsa do centro, os prédios antigos foram derrubados e uma nova cidade foi construída para entrar na nova ordem econômica mundial Aos habitantes, restou ocupar os morros nos arredores Esse seria o real motivo da revolta que deixou o Rio de Janeiro de ponta cabeça em 1904
Serviço:
- A Revolta da Vacina
Autor - Nicolau Sevcenko
Editora - Cosac Naify
Páginas - 144
Quanto - R$ 37
A revolta não visava o poder, não pretendia vencer, não podia ganhar nada Era somente um grito, uma convulsão de dor, uma vertigem de horror e indignação Até que ponto um homem suporta ser espezinhado, desprezado e assustado? Quanto sofrimento é preciso para que um homem se atreva a encarar a morte sem medo? E quando a ousadia chega a esse ponto, ele é capaz de pressentir a presença do poder que o aflige nos seus menores sinais: na luz elétrica, nos jardins elegantes, nas estátuas, nas vitrines de cristal, nos bancos decorados dos parques, nos relógios públicos, nos bondes, nos carros, nas fachadas de mármore, nas delegacias, agências de correio e postos de vacinação, nos uniformes, nos ministérios e nas placas de sinalização Tudo que o constrange, o humilha, o subordina e lhe reduz a humanidade Eis os seus alvos, eis o que desperta sua revolta, e o seu objetivo é assumir e afirmar, ainda que por um gesto radical, ainda que só por uma vez, a sua própria dignidade O resto é agonia em silêncio
(Fragmento de ''A Revolta da Vacina'', de Nicolau Sevcenko)

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