Nunca se falou tanto como nos dias de hoje. Nunca houve tanto blábláblá. Impulsionado pelos celulares, internet e redes sociais, o mundo se tornou um gigantesco joga conversa fora.
Aparentemente algo magnífico, os diálogos se ampliaram em direção ao infinito. As pessoas nunca conversaram tanto. Nunca manifestaram tanta opinião. Nunca tiverem acesso a tanta informação. Nunca houve tanto diálogo.
Como as aparências enganam, talvez os diálogos virtuais não tenham as características do diálogo propriamente dito. Talvez estejam mais para monólogos travestidos de diálogo. As pessoas estão aparentemente inseridas numa enorme rede de diálogo, mas na realidade estão falando sozinhas.
Em seu novo romance, "Reprodução", o escritor carioca Bernardo Carvalho entra de cabeça nesse imenso blábláblá, nesse vasto jogo de conversa fora, nessa descomunal fissura em emitir opinião sobre tudo, todos e o que aparecer pela frente.
"Reprodução" não possui um enredo em sua forma usual. São cenas mínimas onde as personagens falam pelos cotovelos numa avalanche de opiniões superficiais sobre toneladas de informações virtuais.
Tudo começa quando um brasileiro, estudante de mandarim, entra na fila do aeroporto para embarcar para Xangai. Na fila encontra sua antiga professora de chinês que também pretende seguir para a China levando uma criança pelas mãos. Numa rápida confusão, um policial federal retira a professora da fila para investigação. Ao mesmo tempo outro policial arrasta o estudante para um interrogatório.
Numa sala reservada, o estudante descamba a falar num misto de defesa e desabafo. Para ele, a China vai dominar o mundo. Dominando a língua chinesa, acredita que será capaz de levar vantagem em tudo. Suas palavras reproduzem tudo aquilo que viu em sites e blogs da internet e redes sociais. Seus argumentos são construídos sobre a opinião de colunistas de jornais e revistas. Ele não olha para os fatos, mas para as opiniões veiculadas na rede sobre os fatos. Juntando tudo num único pacote, o sujeito tem opinião pronta sobre tudo. Tudo invariavelmente carregado de preconceito e reacionarismo.
Aquilo que seria um diálogo se revela um monólogo. Na conversa entre o delegado e o estudante, Bernardo Carvalho retira a voz do primeiro e deixa só a voz do segundo. Esse recurso é igualmente utilizado na segunda parte do romance, onde quem assume a verborragia é uma policial federal.
Em outra sala, ela conversa com o delegado sobre as implicações do caso que envolve tanto o estudante, quanto a professora de chinês. A falação segue o mesmo caminho, só que agora a partir de outro ângulo.
"Reprodução" é completamente diferente de outros romances de Bernardo Carvalho como "Nove Noites" (2002), "Mongólia" (2003), "O Sol se Põe em São Paulo" (2007) e "O Filho da Mãe" (2009). Não só no enfoque, mas principalmente na linguagem. Alguns leitores assíduos do escritor podem achar "Reprodução" um livro chatíssimo, um amontoado de blábláblá. Mas é impossível não ver a intenção do autor em fazer da forma conteúdo.
Ao transformar diálogos em monólogos, o autor demonstra como os discursos que infestam o mundo virtual seguem de reproduções em reprodução. Não há o espaço necessário para pensar sobre os discursos, há apenas a rapidez em reproduzir. Nesse território, liberdade e fascismo se confundem, passam a fazer parte de um mesmo pacote sem forma definida.

Serviço:
"Reprodução"
Autor – Bernardo Carvalho
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 168
Quanto – R$ 37

Fragmento:
A contradição é uma merda. Desculpe. Na Arábia Saudita, ladrão é amputado; aqui é deputado. Não preciso de ladrão pra me representar. Tenho opinião própria. É só o que o senhor tem a dizer? Eu já esperava por isso. Ninguém aguenta contradição. É isso aí. Ninguém quer se olhar do espelho. A contradição é a força e a fraqueza da democracia. Por isso é que não pode durar. Por isso que a democracia está condenada a degringolar em fascismo e religião. Leia os colunistas. A gente só não faz porque não pode. Eu, se pudesse escolher, ficava com os americanos. Mas agora é a vez dos chineses. De acabar, não. De começar! É. De começar! Sem contradição. Chinês não tem contradição. E eles já começaram. Vão fazer aliança com russo, com iraniano, com Taleban, com o escambau, com todo mundo que não pode fazer aliança com americano. Pragmatismo. Por dinheiro, e claro, á sempre por dinheiro, o senhor queria o quê?, não vai votar em evangélico, todo mundo sabe, está nos jornais. Qual o problema? Não vai me dizer que o senhor é um dos que acham que a internet é uma entidade do mal controlada pelas grandes corporações de mídia pra acabar com a vida privada!
(Fragmento de "Reprodução" de Bernardo Carvalho)

mockup