LEITURA - Quando a ironia desnuda a realidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de março de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A ironia é o tipo de coisa que pode ser encontrada em todo e qualquer lugar. Seja de maneira evidente, ou de modo dissimulado. Pode ser encontrada tanto no verbo que percorre esquinas e avenidas como nas palavras que cobrem os livros mais discretos.
Se a ironia pode ser encontrada em qualquer lugar, também pode ser convidada para uma conversa. O escritor espanhol Enrique Vila-Matas colocou a singela dama no sofá da sala, ofereceu um chazinho, deu biscoitinho e travou com ela um diálogo devidamente irônico. Uma conversa que deu origem a ''Paris Não Tem Fim'', seu mais novo romance lançado pela editora Cosac Naify.
O narrador de ''Paris Não Tem Fim'' é um autor que tenta, por todos os meios, ser parecido fisicamente com o lendário escritor norte-americano Ernest Hemingway. Regularmente participa de todo tipo de concursos de sósias do romancista, mas invariavelmente ganha a última colocação. Em meios a essas tentativas infrutíferas, recorda a época em que viveu por um breve período na capital francesa. Período esse que, em plena juventude, meados da década de 70, realizou o sonho de viver entre os escritores boêmios mais famosos do universo literário europeu. Num minúsculo sótão alugado de sua vizinha, Marguerite Duras, vivendo graças à minúscula mesada do pai, o aspirante a escritor se empenhava em criar sua primeira obra. Um romance onde o personagem principal se encarrega de assassinar todos os possíveis leitores do livro.
Nessas recordações, relata os encontros que teve com grandes figuras da literatura, tanto vivas como mortas. Encontros sempre inundados por uma ampla gama de ironia. Em seu primeiro encontro com Marguerite Duras, por exemplo, ganha de presente da escritora uma apostila repleta de dicas para se escrever um romance. Um verdadeiro manual com fórmulas exatas e lógicas. O drama do jovem aspirante está no fato de não entender o que aquelas normas querem dizem. Assim, passa a indagar a todo poeta ou romancista que encontra pela frente como entender tais normas.
''Paris Não Tem Fim'' é uma espécie de narrativa híbrida que coloca num mesmo espaço o gênero ensaio e o gênero romance. Repleto de citações e referências literárias propõe uma maneira inusitada de abordar a realidade com refinada ironia.
A literatura de Vila-Matas, de maneira deliberadamente irônica, não focaliza as grandes questões da existência humana. Seu foco é a própria literatura, a arte que geralmente aborda as grandes questões da existência humana. Não seria exagero dizer que tanto o tema principal, como o personagem central, dos romances do escritor sempre é a própria literatura. Essa características está presente em seus romances como ''A Viagem Vertical'' , ''Bartleby e Companhia'' e ''O Mal de Montano'', todos publicados no Brasil pela Cosac Naify.
Nascido em Barcelona em 1948, Enrique Vila-Matas é um dos nomes de destaque da atual literatura espanhola. Nos últimos anos recebeu alguns dos principais prêmios literários europeus. Sua literatura é, invariavelmente, pautada pela crença de que a arte da palavra é um reservatório de água no meio do deserto caótico da modernidade.
''Paris Não Tem Fim'' é uma piscina de ironia em dia de sol fervente. Uma parte da narrativa é claramente autobiográfica, outra parte é a ironia destilada da ironia sobre a parte autobiográfica. A sedutora tese de Vila-Matas é simples e pode ser resumida numa pequena frase: a ironia é a mais alta forma de sinceridade. Um universo restrito ao mundo adulto: ''A ironia não é uma incorporação, faz parte dos mecanismos de representação do mundo, oferece um ângulo de sombra sobre esse mundo. A ironia, por outro lado, é uma figura retórica, desmente a linguagem. E, sem dúvida, eu não quero desmentir nada do que acabo de dizer sobre ela. Não é nada irônico tudo o que eu disse sobre ironia. É que no fim das contas a arte é o único método de que dispomos para dizer certas verdades.''
SERVIÇO
- ''Paris Não Tem Fim''
Autor - Enrique Vila-Matas
Editora - Cosac Naify, tradução de Joca Reiners Terron
Páginas - 248
Quanto - R$ 45


