LEITURA - Pudim de sarcasmo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Família bacana, marido, mulher, filhinhos, tudo certinho, cama, comida, roupa lavada, gramado, piscina, carro na garagem, cachorro, emprego maravilhoso, vizinhos lindos, culto no domingo, novela e férias num cruzeiro.
Na literatura do escritor norte-americano John Cheever (1912-1982) a família bacana passa perto de um comercial de margarina, pão integral, geleia, iogurte, café, bolacha, suco de uva, mamão, granola, barra de cereais, melão, aveia, chazinho, queijinho e leitinho. Passa perto porque possui um lindo café da manhã, mas também tem uma coisa que não aparece nos comerciais: o lado de dentro daqueles que se sentam à mesa.
O que a literatura de John Cheever revela vai aparecer apenas na solitária convulsão silencioso no banheiro de porta fechada e trancada. Um vômito que revela resquícios carcomidos de marido, margarina, mulher, pão integral, filhinhos, geleia, tudo certinho, iogurte, cama, café, comida, bolacha, roupa lavada, suco de uva, gramado, mamão, piscina, granola, carro na garagem, barra de cereais, cachorro, melão, emprego maravilhoso, aveia, vizinhos lindos, chazinho, culto no domingo, leitinho, novela, queijinho e férias num cruzeiro.
Esse lado mais provocativo da literatura do escritor inunda "Bullet Park", romance publicado originalmente em 1969 que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras. Talvez seja sua obra mais ferina, onde as ironias não se apresentam por trás das cortinas, mas entre os talheres do almoço e do jantar.
"Bullet Park" narra a histórias de dois sujeitos que residem numa pequena cidade que dá título ao livro, uma espécie de condomínio classe média alta nas redondezas de Nova York. De um lado está Nailles, um bom pai de família que cresceu com toda a estrutura necessária para ser tornar um sujeito bem sucedido, trabalhador, honesto e religioso. De outro está Hammer, um sujeito que não teve família e viveu todo tipo de atropelos e vicissitudes. Nailles é a ordem. Hammer é o caos.
E dentro da ordem de Nailles, inesperadamente, começa a surgir os tentáculos do caos. Coisas simples como sentimentos que até então pareciam impossíveis de povoar seu interior, começam a colocar as garrinhas de fora. A família, exemplo supremo de ordem e harmonia, começa a azedar o leite do café da manhã.
E dentro do caos de Hammer, começa a brotar a necessidade de alguma ordem. Mas não aquela ordenadora do senso comum, mas aquela da rebeldia cruel e delirante. Para a própria redenção, correrá atrás do ímpeto de imolar alguém no altar da igreja num apoteótico assassinato.
A panorâmica da fachada familiar e social apresentada em "Bullet Park" é de um sarcasmo coberto de açúcar. Tipo pudim de leite condensado recheado de farpas e coberto com calda de hipocrisia. A família margarina é exposta ao sol até se transformar em banha de rebanho bobo alegre.
A biografia de John Cheever é curiosamente igualmente dividida em doces e farpas. As referências doces são relativas às informação sobre sua existência enquanto ainda estava vivo. As farpas dizem respeito às informações que apareceram após sua morte, ocorrida em 1982.
Até morrer, Cheever era o exemplo de bom sujeito. Arrimo de família responsável, marido fiel, pai dedicado, um sujeito que levava uma vida na linha. Após sua morte, com a descoberta de seus diários, a coisa mudou de figura. As informações trazidas à tona apontavam para um homem oposto, marido infiel, pai irresponsável, homossexual dissimulado, alcoólatra inveterado e propenso a violência doméstica.
Cheever morava, com a mulher, filhos e cachorro, no Bullet Park.
Serviço
"Bullet Park"
Autor John Cheever
Editora Companhia das Letras
Tradução Pedro Sette-Câmara
Páginas 222
Quanto R$ 41


