Parece um velho livro de Dalton Trevisan. A já conhecida galeria de pequenas perversões familiares, as ironias dos conflitos amorosos, os tarados de olhos doces, a aurora dos seios nas meninas, as viúvas alegres, a vingança com pão e manteiga, os velhos assanhados, os suicidas despeitados, a violência no café da manhã e muito mais.
''Desgracida'', novo livro de Dalton Trevisan que a editora Record coloca nas livrarias essa semana, parece como outras tantas obras do escritor curitibano. Traz uma coleção de mini-contos, ou ministórias segundo o próprio autor, com a grande característica que consagrou sua literatura: a condensação absoluta.
A novidade de ''Desagracida'' está numa pequena seção intitulada ''Mal Traçadas Linhas'', uma espécie de óvni dentro do livro, formada por 14 cartas redigidas por Trevisan, datadas entre as décadas de 60 e 90 tendo como destinatários algumas figuras identificadas e outras um tanto nebulosas.
Difícil saber o que essas cartas fazem no livro, já que não existe nenhum tipo de contextualização e trata-se de uma correspondência de mão única. Aparentemente o autor resolveu, no alto de seus 85 anos completados em junho último, abrir o baú de sua correspondência.
Mas, levando em conta a atípica figura de Dalton Trevisan, também é possível acreditar que talvez tudo não passe de uma correspondência ficcional. Uma espécie de exercício literário onde cabem tanto provocações quando homenagens.
Entres os destinatários das cartas estão figuras fantasmas como um sujeito chamado ''X'' e uma mulher chamada ''Senhora''. Há também destinatários como os escritores mineiros Pedro Nava (1903 - 1984) e Otto Lara Resende (1922 - 1992). A esses dois últimos, Trevisan não apenas tece melosos elogios como também assume a posição de genuíno puxa-saco. Algo revelador tratando-se da figura sombria e arredia daquele que é conhecido como Vampiro de Curitiba.
A carta mais interessante de todas é aquela em que Dalton relata comentários sobre ''Grande Sertão: Veredas'', clássico da literatura brasileira do escritor João Guimarães Rosa (1908 - 1967). Trevisan chama Rosa de ''romancista menor'', o ''comportadinho das palavras'', e descreve sua obra prima como ''literatura de travesti'', um ''livro artificial''. Seu argumento, completamente pobre, é de que a personagem de Diadorim não é nada plausível, próximo do inverossímil. Algo como um completo absurdo a possibilidade de uma figura feminina viver disfarçada num bando de jagunços inflados de testosterona.
Fica evidente a opção de provocação de Dalton Trevisan, já que o ponto central da obra de Guimarães Rosa não tem nada com travestis ou verossimilhança com a realidade. É puramente literatura, a mesma arte presente nas ministórias criadas pelo escritor curitibano. A mesma arte presente em ''Desgradecida''.

Serviço
- Desgracida
Autor - Dalton Trevisan
Editora - Record
Quanto - R$ 37,90 (240 págs.)

Falemos mal do ''Grande Sertão''. Rompe você ou começo eu?
Lá vai em pleno dó no peito: o Rosa é o herdeiro de José de Alencar, epígono de novo indianismo. Seu jagunço pomposo, guardada a distância, o mesmo índio guarani. Riobaldo, um Peri sofisticado, e Diadorim, outra virgem dos lábios de mel.
Um cronista genial, a mão leve de beija-flor, mas - ai de mim - um romancista menor. Riobaldo não se sustenta nas alpercatas e Diadorim, coitada, é pura donzela Arabela. (Fragmento de ''Desgracida'' de Dalton Trevisan)

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