LEITURA - Prato frio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Vamos supor que o mal, num belo dia de sol e céu azul, resolva fazer o bem. Na melhor das boas intenções o mal usará o próprio mal, a única ferramenta que possui, para fazer o bem. Alguns podem achar que a intenção merece aplausos, mas os lúcidos saberão tratar-se da mais pura vingança.
Quando o mal decide pratica o bem, ele não está se recuperando. Ele na verdade está se vingando do próprio bem. Um tipo de vingança que tem como objetivo destruir o lado bom dos homens.
Essa discussão simbólica está sutilmente diluída nas páginas de ''Dívida de Sangue'', romance do escritor norte-americano Michael Connelly que acaba de ser lançado pela editora Record. O livro foi transformado em filme em 2002 com direção de Clint Eastwood, que também fazia o papel principal do detetive Terry McCaleb.
Na obra, Terry é um detetive aposentado do FBI especialista em psicopatas. Com um coração recém transplantado, vive pacatamente num barco na marina de Los Angeles. Entre um remédio e outro, recebe a visita de Graciela, uma mulher que deseja que ele investigue a morte de sua irmã, Glória, baleada durante um assalto. O argumento de Graciela é fatal: o coração transplantado em Terry era o de Glória. Assim, o ex-detetive começa a sentir-se em dívida para com a mulher. Ele só está vivo porque ela foi assassinada.
A novela das oito termina aí.
O que seria um simples assalto para a polícia, se revela uma série de crimes interligados. Terry descobre que existe um serial killer brincado com a polícia, criando todo tipo de pistas falsas. Existe alguém assassinando doadores de órgão e Terry é um dos beneficiados pelas mortes. Daí para ele se tornar um dos suspeitos é um pulo.
Paralelamente Michael Connelly expõe as mazelas dos policiais que vivem imersos numa eterna briga de egos. A solução dos crimes e condenação do criminoso vale menos do que o nome de quem foi responsável pela solução. A rivalidade entre os investigadores é o que move a polícia, não a paz dos cidadãos. E é a própria existência da violência que dá sentido a seus egos.
Michael Connelly também toca num dos temas mais frequentes no romance policial contemporâneo: a sede de poder do criminoso. Ao assassinar, o criminoso estaria em busca de poder. A forma que tem disponível para sentir a sensação de poder é justamente não ser preso. Quanto mais tempo permanece impune, mais poder possui. Quanto mais cruel, mais poder representa ter.
Nascido em 1956, Michael Connelly é mais conhecido pela série de dezessete romances policiais protagonizados pelo detetive Hary Bosch, um policial obstinado e amante de jazz. Alguns dos livros da série possuem até um CD encartado com as músicas que o personagem ouve ao longo da narrativa.
Com o aprofundamento das investigações, Terry descobre que todos os assassinatos foram realizados para beneficiar uma pessoa específica que necessitava de um transplante: ele próprio. Alguém não desejava que ele morresse na fila de espera. Não alguém que o amava, mas alguém que o odiava. Tudo por vingança.
O prato que se come frio. A vingança que instala a culpa na mente do sujeito. A vingança que faz com que o sujeito não precise ser torturado, mas que ele próprio se torture ao longo dos anos. Uma enorme pedra na consciência que faz com que a salvação se transforme em condenação.
Vamos supor que o bem, numa bela manhã azulada, resolva fazer o mal. Na melhor das más intenções, o bem usará o próprio bem, a única ferramenta que possui, para fazer o mal. Alguns podem achar que sua intenção merece repulsa, mas os lúcidos saberão tratar-se da mais pura vingança.
Quando o bem decide praticar o mal, ele não está se condenando. Ele na verdade está se vingando do próprio mal. Nada mais do que um jogo de espelhos.
Serviço:
Dívida de Sangue
Autor - Michael Connelly
Editora - Record
Tradução - Luiz A. de Araujo
Páginas - 496
Quanto - R$ 57,90
Fragmento:
O irônico era que, além do coração de outra pessoa, Terry levava consigo a secreta convicção de que não era ele que deveriam ter salvado. Tinham escolhido o cara errado. Deveria ter sido outro. Nos dias e nas semanas anteriores ao transplante, ele se preparara para o pior. Aceitara a morte como inevitável. Fazia tempo que já não acreditava em Deus - os horrores que havia visto e documentado foram pouco a pouco minando suas reserva de fé - e a única coisa em que acreditava agora era que a maldade humana não tinha limite. E naqueles dias aparentemente derradeiros, quando seu coração começou a falhar e palpitar na cadência da morte, ele não procurou desesperadamente resgatar a fé perdida para enfrentar o desconhecido. Aceitou que estava chegando ao fim, que iria empreender a iminente viagem ao nada. Estava pronto.
(Fragmento de ''Dívida de Sangue'', de Michael Connelly)


