LEITURA - Perdão amargo
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de outubro de 2010
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A cena não é nada agradável. Um garoto de nove anos, com uma xícara de café nas mãos, abre a porta do quarto da mãe. Ela está na cama, deitada, com um revolver nas mãos apontado para a própria cabeça. O garoto ouve a explosão. O garoto e vê a cor vermelha invadir o quarto.
O pai segue a vida, cuidando da fazenda. Casa-se novamente e arruma outros filhos. O garoto segue tentando apagar a cor vermelha da lembrança. Vive arrumando briga com o mundo, com qualquer um que aparece pela frente.
Um belo dia um corpo é encontrado próximo da residência da família. A madrasta acusa injustamente o garoto de assassinato. Ele vai a julgamento e é absolvido por falta de provas. Mesmo assim é expulso de casa pelo pai.
Esse é o ponto de partida de Rio Abaixo, novo romance do escritor norte-americano John Hart lançado pela editora Record. Após anos desaparecido, o garoto, agora um homem chamado Adam, volta para casa. Volta carregado de dois sentimentos contraditórios: raiva e esperança. Raiva por ninguém ter acreditado nele. Esperança de que o tempo tenha aparado as arestas. Quando coloca os pés novamente na pequena cidade, fatalmente atrai ódio, violência e morte.
Em Rio Abaixo, John Hart mistura dois gêneros populares, a literatura policial e o romance de suspense. Mistura que o consagrou em O Rei da Mentira (Record, 2007), livro que lançou seu nome como uma das revelações da literatura norte-americana mais recente.
O Rei da Mentira traz a história de um advogado que, após o pai ser assassinado, passa a ser o principal suspeito do crime. Procurando provar sua inocência, vai expondo a história da família, repleta de cabeças duras e mal entendidos. Ao longo dos acontecimento procura reatar as relações com a irmã.
Apesar dos crimes, da violências e dos mistérios, tanto O Rei da Mentira quanto Rio Abaixo focalizam, na realidade, os conflitos familiares mais ocultos. Aqueles que não possuem uma solução eminente, que possuem causas pouco visíveis. Mais do que procurar mostrar o momento em que o amor se converte em ódio, e vice-versa, tenta revelar as possibilidades de transformações. Algumas possíveis e outras completamente impossíveis.
Rio Abaixo, numa leitura mais sutil, pode ser considerado um romance sobre o entendimento do perdão. Um sentimento que, apesar de toda propagação da facilidade a seu favor, está muito mais para um jardim de espinhos, ou para uma bebida amarga, do que para uma redenção de rosas.
A literatura de John Hart, um jovem advogado criminalista da Carolina do Norte, é um dos exemplos de como a atual literatura norte-americana possui como referência básica o cinema. Um vertente que se apropria do cinema para desenvolver a estrutura narrativa. Não se trata de levar a linguagem cinematográfica para a literatura, mas de estruturar o gênero romance de maneira cinematográfica.
Em Rio Abaixo isso fica evidente. A trama é importante como o gênero exige, mas os recortes executado na trama é onde reside a chave da narrativa. A necessidade de velocidade reduz os pontos de maior importância em zaps e flashs. Pode ser uma maneira de representação de época. Também poder ser uma maneira de resumir o vazio numa cereja de bolo.
Quando minha mãe se matou, matou minha infância também. Ela levou a mágica consigo. Era muito para que eu pudesse perdoar, destrutivo demais, e na ausência do perdão, o ódio me preencheu, ao preço de vinte anos, e só agora eu estava começando a entender. Ela fez o que fez, mas o pecado que cometeu foi o da fraqueza, assim como o de meu pai; e embora as repercussões do crime tenham sido enormes, o pecado em si era uma das fragilidades humanas. Foi isso que Dolf tentou me dizer, e eu sabia agora que suas palavras não se deviam apenas ao interesse de meu pai, mas também ao meu. A falha do meu pai foi onde o ódio começou, foi isso que pôs a roda a girar, e a cada dia parecia menor. Por isso, abracei minha mulher e disse a mim mesmo que da próxima vez que sonhasse, seguiria um lampejo branco. Eu caminharia pela trilha escura e olharia para o que mais temia ver.
(Fragmento de Rio Abaixo, de John Hart)
SERVIÇO
Rio Abaixo
Autor John Hart
Editora Record
Tradução Francisco Innocêncio
Páginas 378
Quanto R$ 49,90


