''A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. Coçou de leve o pavilhão, depois afundou no orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira. Até que, traque, ouviu o leve estalo e, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria.''
Com esse irônico prólogo, em 1986, escritora Marina Colasanti abria seu livro ''Contos de Amor Rasgados''. Era um volume formado por uma centena de mini-contos que flertavam com elementos da poesia. Nas pequenas histórias narradas, misturava mitologia ao cotidiano, fábulas aos amores perdidos, realismo fantástico ao relacionamento entre marido e mulher, lendas ao desejo da paixão e até mesmo crônica à sensibilidade feminina.
Por não ter conquistado o sucesso de outras obras de Marina Colasanti (como ''A Nova Mulher'', ''Eu Sei, Mas Não Devia'', ''O Leopardo é um Animal Delicado'', ''Mulher Daqui pra Frente'' e ''Ana Z Aonde Vai Você?'') o livro permaneceu quase esquecido. Agora, mais de 20 anos depois, ''Contos de Amor Rasgados'' ganha sua segunda edição pela editora Record.
Em suas páginas é possível encontrar boas histórias e, ao mesmo tempo, bobagens intempestivas. Mesmo irregular, a obra aponta para o desenvolvimento do mini-conto numa época em que o gênero era coisa rara. Tudo indica que tenha contribuído para a popularização de um gênero recente que avançou para aquilo que atualmente é denominado de micro-conto.
Nesse sentido, o texto ''Para Sentir Seu Leve Peso'' é um bom exemplo: ''Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol empoleirado no dedo. Mas se abrisse a caixinha, ah! Certamente fugiria. Então, amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha.'' Ou a narrativa de ''Tentando se Segurar Numa Alça Lilás'': ''Entrou no elevador. / A um canto, outra mulher segurava firme debaixo do braço uma enorme bolsa de couro lilás. / - Que ousadia, uma bolsa lilás - sorriu ela. / - Acabei de dizer a um homem que o amo respondeu a outra. - Então entrei numa loja e, entre todas, escolhi essa bolsa. Eu precisava sentir nas mãos a minha audácia. / Não sorriu. Agarrou-se náufraga na alça.''
Apesar de trabalhar com uma temática múltipla, as relações entre mulheres e homens no cotidiano do amor, ou do desamor, permeiam grande parte dos contos. Tudo com especial atenção aos labirintos da alma feminina. O recurso que Marina utiliza é simples. A partir dos sentimentos presentes em determinadas situações, desloca a história para um contexto simbólico entre a ironia e o fantástico. Seu interesse não está no real, mas na poética que o real é capaz de gerar a partir desses sentimentos.
Alguns contos, imersos na atmosfera dos mitos, das lendas e das fábulas, ganham sentidos inesperados e irônicos. Em ''O Prazer Finalmente Compartilhado'', por exemplo, o mito de Prometeu é transferido para uma relação entre marido e mulher no seio do lar. De um lado a mulher comendo diariamente um pedaço do fígado do esposo; de outro, o marido louco para saber qual o sabor daquilo que a esposa se locupleta diariamente com prazer. Em ''De um Certo Tom Azulado'', a lenda de Barba Azul é reproduzida em um novo casamento. O marido proíbe a jovem esposa de entrar em determinado quarto da casa, mas ela é impelida pela fatal curiosidade. Quando entra no cômodo, não encontra o corpo das esposas anteriores do marido. Encontra, na verdade, as esposas numa mesa de cartas. Todas a esperando para uma vaga num jogo de buraco.
Marina Colasanti nasceu na Etiópia em 1937, filha de pais italianos. Ainda criança se transferiu para a Itália, onde viveu até os 11 anos de idade. Em 1958 mudou-se com a família para o Rio do Janeiro, cidade onde vive até hoje. Paralelamente à atividade de escritora que a consagrou com vários prêmios Jabutis, atuou como jornalista e publicitária em vários jornais, revistas e agências do eixo Rio-São Paulo.



Nunca Descuidando do Dever

''Jamais permitira que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo da sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.
Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou sub-repticiamente a marcar seu avanço na pele do rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.
Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz até a boca tornou-se inegável. Sem dizer nada, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosamente, ligou o ferro''.
(Texto que integra ''Contos de Amor Rasgados'' de Marina Colasanti)


SERVIÇO
■ Con­tos de ­Amor Ras­ga­dos
Au­tor - Ma­ri­na Co­la­san­ti
Edi­to­ra - Re­cord
Quan­to - R$ 37,90 (208 ­págs.)

mockup