''Puta de um homem só.''
Essa frase poderia ter nascido na saliva do dramaturgo Nelson Rodrigues. Mas não. Ela está em ''Doce Gabito'', novo romance do escritor carioca Francisco Azevedo que acaba de ser lançado pela editora Record. A obra não remete apenas ao universo literário de Nelson Rodrigues, mas também ao do escritor colombiano Gabriel García Márquez.
''Doce Gabito'' narra a história de uma garotinha chamada Gabriela Garcia Marquez que vive num morro da cidade do Rio de Janeiro. Sua vida é uma infindável coleção de perdas. Todos seus familiares padecem de tragédias sucessivas, um a um. Pais, avós, amigos, tios, etc. Para combater as dores, em suas fantasias, recebe a visita de um anjo bigodudo que lhe oferece doces palavras de consolo.
Ao longo das tragédias, resta à garotinha morar com o último membro família vivo, uma tia desconhecida que a família mantinha segredo. O motivo é simples: a mulher é dona de uma luxuosa casa de prostituição do centro da cidade instalado num palacete imperial.
Morando em seu novo lar, Gabriela entra em contato com um mundo novo e surpreendente. A tia faz questão que sua vida seja a de uma criança comum, principalmente dedicada aos estudos. Na escola descobre a existência de um autor chamado Gabriel García Márquez. E mais: constata que ele é o anjo bigodudo que a visita em seus momentos de dúvidas e dores.
Quando a garota completa 15 anos de idade, a tia recebe uma proposta milionária de um dos clientes da casa, um empresário rico, casado e pai de dois filhos: ele deseja comprar a virgindade da garota. E mais: deseja comprar a exclusividade da cama de Gabriela. Assim, ela se transformaria numa ''puta de um homem só''. Fidelidade absoluta, devidamente registrada em contrato comercial e cheques assinados. Com direito a vestido de noiva, flores e presentes.
Em ''Doce Gabito'', Francisco Azevedo flerta com o realismo mágico desenvolvido por Gabriel García Márquez. A personagem Gabriela vive entre o mundo real e o mundo dos sonhos. E mistura os dois sem nenhum pudor. Até a prostituição é desenhada como um conto de fadas sem dragões ferozes nem bruxas malvadas. Surge até a hipótese de que a prostituição seja ''a psicanálise do corpo''.
Além de remeter ao universo dos livros de García Márquez que a personagem lê ao longo da história, há uma clara alusão ao último romance publicado pelo escritor colombiano, ''Memória de Minhas Putas Tristes'' (Record, 2005). Só que do ponto de vista feminino e devidamente carregado das fantasias.
Na cabeça de Gabriela, o cliente, seu comprador se transforma em príncipe encantado. Ela passa a se ver como a verdadeira mulher do sujeito. A esposa real, aquela que não sabe de nada, seria a outra. O sonho em desposar oficialmente o amante, e passear pelas ruas ao seu lado como mulher real, longe da cama de quatro paredes, ganha proporções mágicas e, ao mesmo tempo, neuróticas.
Uma das sutilezas inserida na narrativa está no vínculo que a personagem principal estabelece em relação ao tato. A proximidade do corpo do outro assume o sentido de aconchego e segurança. A pele do próximo como abrigo contra todos os tipos de tragédia. Isso fica claro quando Gabriela chega ao momento de trocar os bichos de pelúcia pelos bichos de pele e osso.
Nascido no Rio de Janeiro em 1951, Francisco Azevedo abandonou a carreira diplomática para se dedicar à literatura. Seu primeiro romance publicado, ''O Arroz de Palma'' (Record, 2008), possui uma trajetória curiosa. O livro não recebeu atenção da crítica, muito menos da grande mídia. Mas caiu nas graças dos leitores. Através do boca a boca e das redes sociais, ganhou milhares de fãs. Atualmente o romance encontra-se na quarta edição nacional e no próximo ano será lançado em países como Itália, Estados Unidos, Alemanha e Espanha. Tudo indica que ''Doce Gabito'' pode seguir caminho semelhante. Uma história sobre o brilho da afetividade no exato momento em que ela faz falta.

Serviço:
- Doce Gabito
Autor - Francisco Azevedo
Editora - Record
Páginas - 464
Quanto - R$ 44,90

Fragmento:
Sabemos que ao sonhar, transitamos sem esforço por lugares inimagináveis e vivemos experiências fabulosas. Diante de nossos olhos, mortos e vivos se confraternizam ou se digladiam de igual para igual. Conversamos com parentes distantes, fazemos sexo arrebatado e sem culpa com quem quer que seja, atuamos em cenários que aparecem e desaparecem num piscar de olhos. De um extremo ao outro do infinito, nos deslocamos com a leveza de um afago, prontos para a loucura que vier. Somos trucidados pelo inimigo mais cruel e saímos do martírio sem um arranhão sequer, até no pior dos pesadelos, porque, como nos desenhos animados, somos invencíveis. É natural que seja assim. Nada pede explicação. Nada nos espanta. No sonho cabe o impossível. Universo portátil que, de tão fácil e perto, nos chega com o simples fechar de pálpebras. O problema é que, se no sonho dormindo não temos o controle de nada - e é exatamente isso que nos liberta e descansa a mente -, no sonho acordado, pretendemos ter o controle de tudo. É nessa ilusão infantil que reside todo o mal.
(Fragmento de ''Doce Gabito'' de Francisco Azevedo)

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